Bombay

Azul Enganador

02 janeiro 2007

fractura


Fracturei o tempo. Não consegui ter osso para isto...

Na fractura esqueci. Esqueci-me de mim e de mim em coisas pequenas como deixar os parabéns ao francisco na data certa nem que fossem só escritos com o dedo na janela do inverno que sentia em Madrid, esqueci dos postais de natal e da vontade de os escrever. Apeteceu-me fugir só para poder quietar. Assim o fiz, uns dias, para Madrid porque lá não gira o mundo, o meu.
Fui solidificar o osso da fractura que ficou muito tempo exposta. Em convalescência, estou eu.

14 novembro 2006

sem dizer nada, deixo...










fotografias Daniel Blaufuks



" ---------------------- se estiveres ausente, compra um papel simples que te comunique e envia-mo pelos meios mais eficazes ao teu alcance, e que te revelem como comprimido a desfazer-se debaixo da língua."

Maria Gabriela Llansol em " Amigo e Amiga - curso de silêncio de 2004 "

05 novembro 2006

xx. esquecimento ?

------------------------ os meus sentimentos, os seus sentimentos estão a ser queimados pela luz da lâmpada; alguns protestam;alguns desmaiam;um recolhimento que eu duvidava poder existir ao telefone e,
não movendo os lábios, e nem sequer falando,
" e aqui quem mora?".

Uno as pontas deste delírio porque ele retoma um encadeado de emoções que vão do júbilo ao pungente. Tento falar para quem ? Por que levanto o auscultador ? Por que alguém se cala.Traz simplesmente um presente que depõe nos fios.
Regresso ao ponto inicial:
" os meus sentimentos, os meus sentimentos estão a ser queimados pela luz da lâmpada"



Maria Gabriela Llansol em " Amigo e Amiga - curso de silêncio de 2004"

03 novembro 2006

flirt de chuva


Ainda há homens para o flirt ?... elas esperam pouco, muito pouco. Um acaso subtil, um contorno despercebido, um desvio à atitude polidamente assumida, uma escorregadela na sinceridade. Estas mulheres fazem-se ao desvio, querem-se surpreendidas.

Ainda há homens que se deixam ir á chuva, que se atirem fora de comboios em andamento, que toquem á porta às três da madrugada, que enviem uma carta escrita com aparo que arranha ? que é feito deles ?

Estas mulheres, esperam-nos. Todas elas, a todos eles que se deixam. Mulheres com estilo esperam homens com estilo. Os homens tem a ousadia e as mulheres provocam-na.

Sexta com chuva e o estilo a desfazer.

17 outubro 2006

M de sombra


Este não é o meu amigo M, mas é para ele a fotografia tirada pelo distinto Jorge Molder. M é um homem que criou um novo conceito, o de tornar infinito o espaço entre o que é e o que deixa saber. Neste sentido podemos designa-lo como um homem sombrio. De um escuro que é quente. De um silêncio, para quem sabe, audível. De uma alegria que rasteira a sombra.

O meu amigo M é uma fotografia por revelar. Teimoso como é, persiste em deixar-se na tira dos negativos. Que ampliação dava este meu amigo se um dia ousa-se revelar-se. Um tamanho tão imenso quanto ele.

A amigos assim a gente fala baixinho e acaba a berrar. A amigos assim, reféns do escuro, apetece atirar o mar à cara, apontar a luz aos olhos. Apetece a força da demonstração, por afecto.

O meu amigo M é uma fotografia para acontecer. Também ele faz hoje anos e nós celebramos. No fundo pensamos “ será desta ? “ que a luz se deixa num homem que se esconde na sombra .
Parabéns, M.

M(ulher) em janela azul


Esta é a minha amiga M contra uma janela azul. De M convém ainda dizer que tem uns olhos azuis como poucos, mas teimou Modgliani em por esse azul no retrato da janela. Este é um retrato baralhado da minha amiga M, ficam a saber.

A minha amiga, antiga como o tempo de começar a crescer, faz hoje anos. Celebra assim a passagem das marés. Viemos acenar-lhe, rente na praia, e dizer-lhe que esperamos estar por muito, muito tempo. Tanto tempo quanto o mar.

A minha amiga, e é preciso um bocadinho de evocação..., cresceu comigo nas palavras escritas das cartas. Lembro dela vestida de roxo no apeadeiro quando ainda nos custava falar as palavras que muitas pousamos em cartas. Esta minha amiga foi um vagar imenso e talvez por isso eterno e sanguíneo. Suspeito que sabíamos que jamais nos prediríamos, pelo que nunca tivemos pressa e deixamos a timidez perder a pele e perder-se de nós. Depois das cartas invadi-lhe o quarto amarelo e a carinhosa família. Foi o meu chão do norte. Não sei que alguma vez lhe disse... mas foi muito, muito bom tê-la rente à minha vida. Uma dádiva azulada.

Parabéns, M.

04 outubro 2006

...à minha espera...


Tenho saudades de receber, em casa, envelope fechado e gordo com cassete lá dentro. Tenho muitas, bonitas, guardadas assim. Como cartas para ouvir ou segredos ditos por outros. Os amigos, poucos, ofereciam-me assim a música de que gostavam. A oferta durava o prazer de imensos dias, fazia as horas lentas no comboio, assombrava a felicidade ou acompanhava a tristeza.

Identifico três amigos que com alguma regularidade rara me endossavam vozes em envelopes gordos: M, JP e F. F fazia-o sempre em redor de maio, num trabalho lento e belo. Montava as capas com recortes ou fotografias, escrevia negro desenhado algumas palavras e compilava músicas ... só vozes de mulheres, pequenas revelações, sons do oriente. M e JP com outra agilidade, com outra mais fácil identificação. De todos, como uma dádiva.

Tenho saudades. Muitas. Que me ofereçam sons calados dentro de um envelope. Pode ser agora raso, cd e segredos em formato mp3... ter, à minha espera, em envelope com o meu nome. Tão bom seria... que saudades tenho.

29 setembro 2006

não fora não ter um carocha...


Se tivesse um carocha, hoje partia. Pela chuva. Punha o dedo no mapa e abeirava as estradas junto á água. Talvez fosse até São Jacinto. É uma língua de terra com mar e rio no contorno. Parava no caminho para acertar o destino, reabastecer o depósito e trazer volume de tabaco. Deixava-me á estrada, ao prazer de cumprir o limite de velocidade, porque certa de ter onde ir. Chegar de noite. Na estrada escura e húmida. Talvez ouvir logo o mar e não o saber. Pousar a vida na mesa de madeira. O Café do Francês já não aluga os bangalows de madeira no pinhal... mas podemos fingir haver uma casa nas dunas para conter essa mesa onde se pousava a vida e as mãos na chávena quente do chá.

Há o tempo e a espessura do silêncio. Primeiro, revibram nele as histórias escritas e vividas. De amores, seguramente. Um lugar daqueles guarda com sal os amores e a memória dos corpos apaixonados. Depois calam-se as histórias porque o mar se ouve mais alto. Chega então a espessura do silêncio que permite começar a falar. Connosco.

Era essa a conversa que queria, não fora não ter um carocha.

26 setembro 2006

La mentirosa


Sou uma grande mentirosa! Há quanto tempo não estou já de férias... mas deixei-me estar assim, fazendo crer que sim, que me tinha perdido nesse início de setembro lá muito perto do Atlas. Não me apeteceu dizer ao mundo que já tinha vindo, atravessado em Ceuta, galgado o mar e estava em terras lusas. O mundo que descobrisse que eu tinha chegado, que me molhava já nas primeiras chuvas do outono e começava a respirar sem ter que dizer...

Além de mentirosa, interesseira... é que isto de deixar pregado o letreiro das férias também se me revelava bastante útil. Estava condignamente justificada a ausência de palavras. Porque a verdade é bem outra: não há palavra. Estou muda para começo de outono. Sem linguagem, senão a chuva.

31 agosto 2006

25 agosto 2006

gritante

Tenho o mundo a gritar por mim. Grita sedento do verão quase a cumprir-se. Reclama as férias que ainda não gozei, a luz entornada dos fins de tarde na praia... está quase. Deixei o verão enganar-se em Setembro. Mas até lá o mundo grita em todo o lado, em particular, quando desço às profundezas. Abre a boca e berra...

14 agosto 2006

carpa

( fotografia Inês Gonçalves )

Estou presa ao verão como uma carpa, mas longe do fresco da água. Penduraram-me, em cordel amarelo, na casa de madeira da duna. Vejo o mar mas não lhe sei o sal. Respiro com guelra, a custo...

07 agosto 2006

de pé... na noite



( ando a descobrir que sou mais dada a andar descalça pelas noites, do que suspeitava... )

Noite de Barcelona. Junho de 2005. Foto de casal. Ainda pensei por esta fotografia em moldura e retrato de família.Noites quentes.

Pés sujos ... da dança


Pé sujo preto negro de dançar. Assim mesmo, no chão da madeira, na noite quente na casa da dança. A noite é quente, muito quente Agosto a música é boa, muito boa quente, muito quente... põem então os pés no chão, madeira suja, e danças. Danças ligada à terra danças sem histórias sem homens sem memória ligada à terra pelos pés. Mais fácil. Mais gostoso. Mais simples.

Será assim com as árvores e o vento ?

01 agosto 2006

Para Sempre

Passei estes últimos dias a ouvir o calor da terra misturado com o perfume das maças. Na casa de pedra li todos os livros que tinha para ler, todos os que levara e ainda um que repousava na cabeceira de um dos quartos. “ Cartas a Sandra “ de Virgílio Ferreira. As cartas que surpreenderam a morte. Quando o acabei, numa dessas noites em que me deixava ficar na latada a ouvir a terra respirar, fiquei com a certeza de que deveria voltar ao “Para Sempre”. Já pegara nele em finais de maio, movida pela curiosidade que me restara de um entrevista na rádio em que o entrevistado nutria uma admiração imensa por Virgílio Ferreira e com uma voz quente, dele diziam frases escritas que me pareceram de uma beleza sublime.
Assim aconteceu hoje. Doze anos depois de o ter lido num maio antigo. Desse livro, relido ainda pela metade, apetece dizer:

Um livro que exala calor. O calor da terra serrana. Em cada poro ou palavra nele contida o calor estala. Seca. Abafa. Um livro fácil para se reler para quem vem de uma semana rural, que traz ainda presente a memória da terra e das sombras habitáveis da morte que nas casas de pedra se deixam.

O entendimento triste. É mais triste ler agora aquele livro do que à doze anos atrás quando as ausências da morte eram menores e menos perto dela estávamos. Continua a ser um livro muito bonito mas terrivelmente mais doloroso. Le-lo, é saber por antecipação a dor da vida contida na entrega ou na espera da morte. Com calor, muito calor. Numa casa desabitada, virada para a montanha.

Aquele homem, o Virgílio, deveria ser um homem difícil. Áspero. Feito por dentro. Seco. Pouco sei dele mas a leitura deste livro advinha-o assim. De uma intensidade imensa mas intraduzível. Como um homem assim ama uma mulher, percebesse no “ Para Sempre “. Quase obsessivo. Depois da morte dela. Talvez sem nunca lho ter dito. A palavra por cumprir, cumprida nesta obra.

29 julho 2006

... da terra



( fotografia Inês Gonçalves )

Estive uma semana no minho, na minha terra. Gosto de ter terra e ser pertença.

Todos os anos volto para a casa de pedra com latada de vinha ainda verde. Levo as crianças e deixo-as a saber o mundo com vagar. É a semana em que vou sentar-te junto ao silêncio que fica logo ali rente ao muro de pedra. Levo os meus para saberem, devagar, como se ouve o mundo.

Foi ali que pela última vez vi minha avó no verão quente de à dois anos, o meu tio Casimiro que esperou agosto para morrer. Na primeira noite fico quieta a ouvi-los. Eles deixam-se sombrios a dar-me as boas vindas... e eu que os sei com saudade, aceno no silêncio morno da noite debaixo da latada com a ténue luz do candeeiro da estrada que sobe para a serra.

Depois o alarido das crianças enche o ar, as gargalhadas e a azáfama das tarefas a cumprir: milho e farelo para os pintainhos , descobrir na palha os ovos da galinhas, dar as maças do chão ás ovelhas, correr atrás dos coelhos, descobrir entre a folhagem os ovos de pavão. Andam de socas, sujam-se de terra, são mordidas por mosquitos e riem, riem muito. As tardes são na represa do rio Neiva, junto à azenha pelo caminho medieval. Lugares inimagináveis que esse rio ainda tem em silêncio. Depois descobriram com o pai que perto da casa isolada existe um caminho de Santiago, e fizeram-no aos bocados pela fresca da tarde, apanhavam amoras que depois de lavadas comiam antes de ir para a cama.

Deitam-se cedo quase como os animais. A luz desaparece e pouco resta do mundo. É a hora em que eu pego num livro e me sento à porta da cozinha a ouvir com vagar o mundo.Os ruídos das maças perfumadas a caírem ao chão, das folhas remexidas por animais nocturnos, o vento e o silêncio côncavo e quente. Respirar essa fundura da terra adormecida. Da terra. Saber a terra. Semeá-la em mim enquanto a uva ainda não pintou e se deixa verde nas ramadas, enquanto a chuva é só um ameaço e o calor faz arfar.

Nunca lá vivi e pouco sei da sabedoria da terra. Mas gosto desses dias com cheiro a maças e limões perfumados, de calor e mosquitos, de ameaço de incêndio, de água fria do rio. São as noites, escuras e silenciosas, que tento guardar na pele. A hora esquecida em que o mundo dorme. As certezas que elas me deixam, só muito depois eu as sei.

22 julho 2006

Pausa



Vou estar sem fala. Vou estar sem falar. Uma semana. Mas volto...