Bombay

Azul Enganador

31 janeiro 2006

Submersa

Photo Mulher Azul

Ando submersa entre os dias frios e cinzentos e os dias ensolarados. Submersa no trabalho. Submersa na vida, por minutos por instantes por horas por noites.

Também é azul, lá onde estou submersa. Não sei o que é nem como se diz. Mas é azul e quieto.

30 janeiro 2006

Dislexia minha



Trocar nomes por números, dislexia minha. O que me acontece nos cd's que ouço sempre no carro. Nunca sei o nome dos temas, só o número da faixa.
Pedimos desculpa pela interrupção... a noite segue dentro de momentos.

29 janeiro 2006

Noites Azuis

Gosto de ter os amigos antigos em casa. Ter uma garrafa para cada um. Abrir, com vagar de deixar o vinho respirar, para os receber já aberto e encorpado.Gosto que venham como sempre vieram. Com a mesma facilidade. Podemos demorar mais tempo, como assim temos vidas mais longas, mas que venham com a mesma certeza com que vão.

Se durante muitos anos saímos de casa, fizemos as histórias pelas noites, tinhamos o mundo como lugar; agora temos as casas e o mundo nelas. O copo para os receber. Os espaços caiados para nos ter. As casas tem-nos agora como outrora as noites nos tiveram.Reduziu-se a linha do território. Ou concentrou-se.

Hoje choveu muito mesmo antes de chegarem. A casa e o vinho quente e escondido. Cegamos as garrafas para o paladar as desvendar. Lento e vagaroso na boca. Só tinhamos a obrigação de os eleger pelo prazer. Dissemo-lhes algumas palavras outras. Não creio que tenhamos sabido mais da chuva. Ficamos nessa alegria nocturna habitada na casa.

Classificamos os vinhos talvez como a vida

28 janeiro 2006

Vagar no Azul

Photo Mulher Azul, Nice

Homens Apressados


Não gosto de homens apressados. Daqueles que não sabem que, melhor que o jantar, é o cigarro depois, o resto do vinho e o vagar. Daqueles que pedem a conta logo e não pedem o tempo antes.

Não gosto de homens apressados. Daqueles que, ainda não entramos no carro, e já tem o motor a funcionar. Ainda não chegamos e já estacionaram. Ainda não pedimos e já devoraram a ementa.

Não gosto de homens apressados. Daqueles que ainda não dançamos e já doem os calos, ainda não falamos e já sabem, ainda não insinuamos e já amaram.

Não gosto de homens apressados. Não gosto de apressados.

Quem não sabe vagares, sabe muito pouco.

25 janeiro 2006

Alergia

Tenho vários amigos e conhecidos que sofrem de alergias. Sendo elas respiratórias ou cutâneas, tendo a achar que são alergias ao mundo. Nuns revelam-se, noutros não. Uns ficam prostrados e quase caem da vida abaixo, outros ficam raivosos e trepam pela vida acima.
Dos que ficam prostrados, mais dados à nossa comoção interior, reparo nas formas distintas como lidam com a prostração. Uns enfiam-se na cama, a qualquer hora que seja, acompanhados dum antiestamínico e tapam a cabeça do mundo. Dormem sonos desconhecidos. Dispensam-se desta coisa de viver e ter vida. Outros, em versão menos radical, enrolam-se no sofá e vem séries televisivas do primeiro ao último episódio em versão concentrada de dvd. Estes, não se demitem de todo de viver mas preferem faze-lo na vida dos outros, episódio a episódio, com suspense pelo meio.
Dos alérgicos raivosos, os que trepam pela vida acima, pouco sei... estou cá em baixo e é-me difícil apanha-los tão lá em cima! Suspeito que a alergia os apanha pelo todo com excepção do ego. E nele dá-se então essa reacção algo estranha e bizarra, a de trepar em qualquer lado.
Do resto dos amigos e conhecidos, em que as alergias ao mundo não se revelam , elas suspeitam-se. Não se revelam mas suspeitam-se. É quando se detecta um sinal pequeno de tristeza...

24 janeiro 2006

Anda por aqui...

Mas temos mesmo ?

Mas temos mesmo que ter alma, sempre ? por ora, não me apetece.

23 janeiro 2006

Azul Emprestado

O meu carro, que é velho e verde, resolveu deixar-se cair aos pedaços. Desta feita, foi o vidro. O vidro do meu lado esquerdo, aquele mesmo pertinho de mim. E heis que me deixou a arejar até ao osso, a circular tolhida e a acreditar que levo Janeiro à boleia. O meu carro velho e verde insiste em dizer-me que a realidade é fria. Deixei-o, hoje, quieto virado para o mar.

Oportunista, aproveitei uma ausência em Berlim e usurpei-me de outro. Azul, grande e novo. Faltam os meus cd’s, não sei onde se ilumina a estrada, fuma-se nele com mais pudor, o banco não me reconhece e eu mudei-lhe, o ângulo de visão do mundo, pelos espelhos. Pese a estranheza, confesso que é muito gostoso ter a sensação que estanquei Janeiro ! Que vedei o frio para além da geada natural com que a alma se faz por estes tempos de soalheiro inverno. Não sei se a realidade é fria ou não... mas não será o meu carro a dizer-mo.

Emprestaram-me um azul...

21 janeiro 2006

Hoje, o azul é Teresa

20 janeiro 2006

Janeiro


assim janeiro se vê...

O azul fingido inter-rail dos 30


Quero lembrar o quente que o tempo tem. Janeiro é frio e gela por dentro. Acrescento ao quente, um vento quente. Procuro azul e heis - me enfiada num carro grande e branco. Miami. Uns dias na mão, apenas dez.

Tudo aconteceu por acaso. As estradas, os lugares para atalhar, os motéis para parar. Tudo foi deixado acontecer por acaso. As noites que deviam ser quase dias, a certeza do gin no meio de poucas certezas, a incerteza do mar. O mapa cedeu à vadiagem do tempo e do amor.

E era tanto o vento, e era quente, e tanto o azul que uma madrugada, ainda escura, deixamos o carro no parque e tomamos o barco para acordar nas Bahams. Gargalhamos infantilmente da perversidade de acreditar que fazemos os rumos. Como já acontecera ao vinte. Num comboio. Até o oriente mais perto.

Em ambos os inter-rails se levaram amores e se deixaram outros. Um foi de comboio aos vinte, outro aos trinta de carro branco.

Chego pelo quente a esta viagem. Azul. Descontinuado azul.

19 janeiro 2006

Ouve

18 janeiro 2006

Correio Azul

Não sei como aconteceu este azul blog. Aconteceu por ter descoberto o blog de uma azul mulher amiga e de achar que era um segredo. Como os segredos não se devem abrir, resolvi pensar como responder. E no vagar de exprimentar uma resposta fui fazendo entre as mãos, hesitantes, este blog.

Não há engano mais perfeito no mundo do que o azul da garrafa de Bombay. Foi assim o nome e o começo. O começo de quê, não sei bem ainda. Não é uma obcessão, ser azul. Faço azul, Janeiro. Enganador, Fevereiro. X de Março. E heis o começo de não sei o quê, ainda.

Para já há o gozo desta sensação de haver uma reserva de entusiasmo. De haver um espaço e um tempo fértil. Não preciso de confissões, tenho as palavras tão fáceis como na boca, aqui o segredo é um engano. É mais haver um lugar que me espera e me apetece. Como um caderno. Como uma janela. Saber que existe e toma-lo como reserva. Como um depósito de .

A mesma alegria inquieta de antigamente, essa a de em cada dia novo ir à caixa do correio e esperar cartas. As que chegavam e as que nunca chegavam. As que tinham resposta e as que nunca se respondiam. Essa alegria inquieta e espessa que se tinha sobre os dias úteis.

Agora é a mesma alegria, menos inquieta talvez, porque um blog é mais um correio azul.

Olhos Azuis Cabelo Preto

"É a história de um amor, o maior e mais aterrador que me aconteceu escrever. " Dizia Duras sobre este livro.Dizia Duras sobre esse amor.
Acontece que já não sei como são aterradores os amores. Acontece que já não sei como acontece escrever.
Essa mulher escreveu uma só história em todos os seus livros. Inalava deles os cheiro quente dos corpos amados e do oriente. O mesmo cheiro das feridas. Lembro deles, o calor húmido. As sombras dos quartos, os lençois desfeitos, as pás das ventoinhas. Suavam esses livros. De outros, é a neblina das manhãs junto ao Atlântico que resta. As praias, os nortes e os hotéis enormes.Em tudo cabe a mesma história que não coube nela.
Gostava dos livros dela. Muito. Talvez quando me era, ainda, aterrador o amor. Quando a vida, pequena e feita de pouco, se alojava nas histórias para ser maior. Mais quente. Mais oriente. Mais mar. Mais qualquer coisa imensa.
Agora não. Dizem-me pouco ou quase nada. Calaram-se. Ficaram quietos.
Mas este livro, o seu nome, lembra-me alguém. Olhos azuis cabelo preto. Lembra-me mulher amiga que também os leu, devagar, um a um. Ela continua a escreve escondida. E eu, escondida dela lhe respondo. Azul enganador.
"- Encontrei uma pessoa que tinha esse tipo de azul nos olhos, não se distinguia o centro do olhar, de onde aquilo vinha, como se o azul inteiro olhasse."

17 janeiro 2006

125 Azul

Não tarda e é a hora das estradas. Longas. Lentas. Com esse vagar fácil de se pensar nas coisas pequenas devagar. Sou das que não se incomodam com as filas. Que fazem desse tempo e desse asfalto um espaço rolante e vadio. Faço nele o tempo que o tempo não deixa.Ouço músicas que jamais ouviria, falo por dentro como quem acaba as conversas que não teve, ponho sépias as memórias que desalinho, ouço rádio e ouço o mundo, fumo cigarros que acabam nos dedos, ponho o auricular e ligo porque ainda não disse tudo. Horas das estradas. Entre o azul e o negro.
Não tenho no tempo outro tempo assim. Só meu. Aleatóriamente meu.
A minha estrada tem um contorno de mar. Faz-se ainda mais azul. Faz-se ainda mais imensa. 125 Azul.
Acaba na casa. A casa é branca.

16 janeiro 2006

Bombay - Azul Enganador

Chegamos noite dentro. Primeira palavra a gelar no copo. Esse azul enganador. Como veludo, o gin. Bombay. Chegamos. " Senta-te copo, bebe comigo... "