Bombay

Azul Enganador

28 fevereiro 2006

Casa Branca - Desmentido


Desmente-se o lugar do mundo, não a verdade.

Apanhem a estrada entre Montemor-o-Velho em direcção a Alcáçovas e seguramente passarão em Casa Branca. Uma estrada bonita, estreita e rasa a brotar sobreiros como a paisagem. Um lugar quieto que outrora ouviu muitos comboios. Estação grande para um lugar pequeno. Branco.

Fui mascarada de Camila Parker Bowles em companhia do meu consorte Carlos, Príncipe de Gales. No baile de segunda, nas cavalariças da casa antiga, em Alcáçovas. Hoje, terça, houve manifestações de rua. O desfile popular e jocoso brincou com o poder instalado, ali tão perto da Casa Branca.

26 fevereiro 2006

Casa Branca


Acedi ao convite de ir à Casa Branca. Ao convite de ir para a Casa Branca, recusei.

Amiúde o convite me era feito e após insistências várias, acedi. Cada um deles insistiu à sua maneira e dessa forma acabei por anuir na ida.


Proporcionou-se, na agenda, a ponte do Carnaval e assim se contará com a minha presença no Baile de Máscaras a realizar amanhã, segunda-feira, na Sala Oval.

Irei mascarada de Camila Parker Bowles em companhia do meu consorte Carlos, Príncipe de Gales.

Uma noite, um homem e uma mulher



Para o meu amigo M

Aguardo notícias do temporal.

Este meu amigo cansado da voz que lhe amarrotava os lençóis, atirou-se noite dentro e foi ter com ela. A desconhecida mulher da voz .

Aguardo notícias da chuva. Porque as histórias de amor podem ou não acontecer.

24 fevereiro 2006

História de Sacanagem

Sou adepta de que devemos homenagear os que nos foram importantes na vida. Há homens que me marcaram, e este de que vos falarei é um deles. António, de sua graça.

O mais inútil e incompetente dos homens com quem privei. Um dia meu chefe.



Este constituí o retrato oficial. Foi depois da hora do expediente. Tirou as mangas de alpaca para o retrato que depois fotocopiou para levar para a terra.Era mesmo doutor ! homem sábio de tanto livro de contabilidade.


Certa de que os homens são feitos da história que lhes calhou em fado, talvez valha a pena um sumário executivo, como ele agora gosta de dizer, da sua passagem pelo mundo até eu ter que o encontrar. Sobre esse encontro serei omissa. Calhou-me em rifa de sorteio organizacional. Não é má gente, deixem-me dizer. Mas é gente pequena de alma, o que faz do chefe-gente um inútil.


Educação cristã na paróquia da aldeia que o viu brotar ao mundo. O Sr. Prior foi homem de grande influência na primeira etapa de vida. Chegou a ajudar à missa e ainda pensou na vocação mas não teve chamamento. Vem desses tempos imemoriais, o ter de mentir em confissão para ter pecado.




Lá se fez de barba rija e pêlo farto. Vem também desse tempo o jeito de os coçar com as mãos nos bolsos. Ousou ser matador com o intuito de ter afficion feminina. Foram duas ou três tardes de sol forte nas festas da aldeia.



História de Sacanagem ( cont )

Conheceu então Maria das Dores. Tomou-se de amores. Fez beicinho. Deixou crescer bigode depois de anunciado o noivado.






Fez-se então ao mundo. Arranjou emprego simples. Jurou ser importante. Para receber o abono de família, fez dois filhos. A coisa de ser importante, tardou. Inscreveu-se no partido e no ciclismo. Depois hesitou entre ser laico e republicano e fervoroso devoto.Desconhecemos a opção.

Finalmente chegou a importante. Como não sabia inglês, recusou a primeira oferta. Foi à segunda. Com traição à mistura, dizem. Mandou fazer cartões, comprou uns quantos fatinhos e gravatas às riscas e trocou os móveis da Moviflor lá de casa.Mandou pintar retrato de família .


Assina jornais ingleses e pede à M.ª Dores para lhe escrever os textos. Já usa o corrector e retira o “ oh pá” dos discuros que lhe fazem lembrar o bom do Sr. Prior tal o exemplo que lhe deu para esta espécie de oratória.
Ainda resmunga da comida francesa dos almoços de trabalho.Mas vai lá... asseguro eu. Vai lá... e vai longe.

O mundo deve saber a história daqueles que para ele contribuem. Inutilmente. E a mim só me resta conta-la aqui em homenagens a outros tantos.

23 fevereiro 2006

Parto

Frida Khalo

Filho foi coisa fácil. Depois da água quente o mundo abriu. Abriu-se ao ar. Chorou. Da água ficou, para sempre, a chuva.

22 fevereiro 2006

Frida Khalo



" eu pinto-me porque estou muitas vezes sózinha e porque sou o assunto que conheço melhor "

CCB - Exposição Permanente

Terça a domingo - 10h / 19h

Até 14 de Maio.

Encruzilhada


Não sei se atravesse o rio. Atravessar é morrer.
Não sei se fique por aqui. Ficar é continuar.

Posso procurar o único hotel no lado estreito do rio. O hotel do Horacio Quiroga. Abrir a janela do quarto virado para a outra margem. De lá, vejo sempre a linha de comboios a contornar este rio imenso. Fazem o sul desse outro território limítrofe.

Atravessar é morrer aqui. É tomar o comboio de Concordia até La Plata. É fazer da linha o meu destino entre as pampas. Dizem-me que se toca e se dança tangos nos comboios que circulam na noite. Levam cartas e amores. Trazem gente do tempo velho. Levam gente para um tempo novo.

Ficar é continuar aqui. É ter um rio tão paralelo quanto essa linha de comboios. É ter um lugar para a chuva. É alargar e estreitar o caudal de que o silêncio de que o Rio de La Plata é feito. Ficarei a ouvir os tangos que se dançam e o ruído dos que vem e voltam nesse comboio da noite. Ficarei aqui, pronta e vestida para a milonga, só à espera . A sussurrar nos lábios melodias com fagulhas. Flor no cabelo posta.

Não sei. Ainda. Vou chamar o Horacio Quiroga. Pedir-lhe que traga o vinho e se sente aqui a conversar comigo sobre isto. Se atravesso ou não o rio.

20 fevereiro 2006

" (...) - Dá-me a tua mão.Porque não sei mais do que estou falando.Acho que inventei tudo, nada disso existiu! Mas se inventei o que ontem me aconteceu - quem me garante que também não inventei toda a minha vida anterior a ontem ?
Dá-me a tua mão (... )"

Clarice Lispector em " Paixão Segundo GH"

19 fevereiro 2006

Chuva


Gosto de chuva. Muita chuva. Chuva furiosa.

Sempre pus muita chuva nos textos perto do mar junto do vento. Sempre ficou bonito e sempre senti que, neles, havia metereologia para ela.

Gosto de chuva e vidro. Da janela das casas que estão à chuva. Nos carros que se molham nas estradas onde até o alcatrão fica, também ele, mais luminoso e bonito. Nos faróis por acender. Simpatizo com os limpa pára-brisas.

É difícil focar a chuva. Aproximação hesitante.Fotografia molhada.

Gosto do papel molhado e dos veios da tinta do resto das palavras que jamais se saberão. Como gosto das partículas que se depositam sobre as imagens, não diluídas, das fotografias à chuva.

Gosto de gabardines. Dão estilo. Fazem vento nos retratos.

Gosto de chuva. A chuva cala-me muito. Cala-me devagar.

Verão, porque hoje choveu vento


( Ventou chuva e choveu vento, tanto… que me apeteceu escrever uma história de verão)

Caiaram a varanda os barcos e o mar puseram uma mesa no limite da linha azul. E esperaram. O mundo esperou. Ameaço de chuva.

Ela chegou de pele morena. Levava os olhos escuros e encostou o carro no limite da terra ocre. Ele parou ao lado. O carro e a vida.

A mesa esperava para se encostarem ao frio do gelo do copo gelado do quente Bombay. Havia a gaivota. Na mesa pousaram o impossível e falaram então as palavras que podiam restar. O relógio parou. Noutra hora a fingir não ser aquela. Havia barcos, havia vento, havia mar. Ele bonito, ela com vestígios de sul. Começaram por gargalhar que é sempre o primeiro sinal de verão. Espessaram a alma com a fugida da luz. Contornaram a história de outro homem para se poderem possuir. O gelo não dura nos copos !... resta o limão para abeirar os lábios e as palavras.

O relógio parou, noutra hora a fingir não ser aquela. O mar não faz paredes.

Foi por isso que uma tarde de verão não foi uma vida.

O homem tem a raiva tão perto da pele. É o mesmo o sal que o fere. Seguramente que os ponteiros do relógio começaram a funcionar. A vida varrida pelo vento das estrada fez o tempo real.

O mesmo sal que o fere, abre feridas onde instantes antes houve prazer. Deixa-o acossado, com raiva de quem mistura sal e vento, como quem se zanga com o mundo e não tem onde bater.

A mulher apenas salga. As feridas, apreende-as agora devagar. A mulher só fez um contorno de violência na pele, o resto é a vida enganada nela.

Um destes dias o verão acaba. Tiram os toldos da praia. Largam as casas ao abandono do inverno. Ela partirá , camisola encarnada para dobrar. Vai esperar a chuva na janela onde os agapantos já morreram. Ele partirá igualmente, com o relógio a marcar a hora exacta do começo das chuvas. Terão todo o inverno, como terão toda a vida, mas o olhar terá sempre vestígios de mar.

17 fevereiro 2006

The End


Sexta à noite, tenho semana cansada, amor. E se tu me levasses a ver filme bonito, de chorar, e depois eu procurava tua mão no escuro e ficavamos assim enlaçados na história do outro amor.

Coisa fácil, amor... coisa fácil. Tenho semana cansada, vida amarrotada e amor estafado.

Pede fila do fim, longe da luz do projector, no cantinho da sala. Vamos amar naquele amor, ter beleza naquele rosto, chorar naquela separação, abraçar naquele encontro, casar naquela cena, despir naquele fim.

Vá lá amor... leva-me a ver filme bonito de amor já que na vida nunca encontrei filme assim.

Istambul


Para FC


Bem sei que em qualquer lugar se faz o Oriente, mas tu estás no contorno de um só. Com vento . Verão. Istambul.

Fomos até lá deixar outros amores. Devagar fizemos comboios e noites inteiras para largar a pele de outras histórias que teimaram em ficar no corpo. Fizemos cidades inteiras, atravessamos planícies, entregamos o corpo a todos os destinos em todas as terras atravessadas por comboios. Mas sabíamos. Sempre soubemos. Tínhamos em comum, não o amor, mas a morte. Conseguimos fazer disso uma celebração feliz, quase íntima.

Apanhamos todos os comboios que existiram, todas as noites atravessadas, falava-mos baixinho como quem sussurra, riamos muito como acontece a quem já perdeu tudo. Tu, um homem bonito. Eu, uma mulher morena.

Chegamos então de madrugada a Istambul, procuramos desesperados a cama para atirar o corpo cansado da Grécia e só então procuramos. Devagar. O fim.

Foi muito rente ao Bósforo imenso. Uma tarde quente de Agosto. Vento, muito vento. Sentamo-nos num café da ponte. Creio que chegaste a folhear o jornal. Pedimos chá turco. Fumei cigarros que trouxe do mundo. Ficamos devagar a deixar palavras, a amar o vento, a falar quente. Não ficou destino algum nas folhas do chá e foi assim que , sem saber, cumprimos a morte dos amores que trazíamos a salgar a pele. Foi também assim que ficamos irremediavelmente eternos. Foi assim , nessa tarde e nesse encontro exacto de vida, que ficaste no contorno de um só Oriente.

16 fevereiro 2006

Assuão


Para a I.A.S.

Perdemo-nos. Não sei de ti à já alguns anos . Não sei como nos perdemos nem sequer se houve porquê.

Deves estar a sul , sempre o teu corpo foi atravessado pelo sul e sempre houve um rio, qualquer um, para nele te poderes atravessar.

Eras, e serás provavelmente, uma mulher imensa. Só assim poderia ser para trazeres em ti a India inteira como sempre o fizeste depois de lá teres estado. Foi depois, que começamos a falar. Em Lisboa, rente ao rio, como o começo da monção.

Foi também como uma monção essa nossa amizade. Creio que soube de todos os homens que te molharam, e falei-te devagarinho de São Jacinto, para lá ires morrer de amor antes mesmo de Goa.

Tudo em ti era imenso: a dádiva, o corpo, a tristeza e o amor.

Moravas provisoriamente toda a vida no 5º esq. de onde se via o rio e nesse verão de 90 resolvemos fazer o Setembro no Egipto.

Lembro particularmente o sul, Assuão, onde se chega por uma linha azul de Nilo traçada sobre a areia do deserto. Tão quente o vento da varanda. E na primeira noite saímos , levadas pelo calor do vento, para as ruas em festa do Assuão. É uma espécie de felicidade infantil a que lembro misturada com o odor das especiarias e comidas. Muitos homens de um moreno quase negro, como são os homens desse sul. E nós, infantilmente, ao calor do vento deixamo-nos pintar como mulheres do Egipto, bebemos chá na rua, tiramos fotografias com homens sem dentes e longas túnicas, e aparecemos felizes e divertidas nas fotografias que restaram dessa viagem na areia.
( Houve outra noite assim. No Cairo. Tontas de alegria a beber leite de coco no mercado. )

Há nesses retratos a imagem do que de ti lembro: uma espécie de perversidade quase infantil. Ficou lá depositado nos cristais das fotografias e do deserto.

Não voltei mais a deserto algum e perdi-te. Lembro-te imensa e triste. Pergunto muitas vezes ao rio onde andas e que sul te acolhe agora. Que amor também ou que espécie de proibição.

Duas gaiatas num deserto quente. Essa fotografia está lá em casa e um dia terei de a colar numa qualquer parede. Porque no deserto temos o rosto da alegria toda do mundo. Já conhecíamos de perto a tristeza mas estávamos como quem está de férias: não quer saber dela. A diferença, é que tínhamos só a vaga sensação de ter o tempo todo, qualquer deserto e esse Assuão, para além do vento quente.

Não sei de ti. Certa que um dia saberei. Num livro talvez. E nele, procurai esse Assuão de Setembro que não estará escrito. Porque não foi memorável, apenas levemente feliz.

15 fevereiro 2006

Porto

Photo Mulher Azul, Dezembro 2005

13 fevereiro 2006

Recebi uma carta da Índia


Recebi uma carta da Índia. Cheirava a calor e especiarias. Estava pousada em casa à minha espera. Era uma carta muito, muito antiga que só agora chegara. Deixei-a quieta.

Pus água a ferver para o chá. Abri as janelas da casa para deixar entrar o frio da noite. Acomodei a cadeira junto à janela. Estiquei os lençóis da cama desfeita e desarrumei o corpo do dia. Trauteei uma música redonda, atei o cabelo em desalinho, deixei os pés ao chão. Ouvi o assobio da água a ferver.

Deixei abrir o chá. Derramei na chávena branca. Deixei pousar as folhas no fundo. E li. Li a carta nas folhas de chá do fundo da chávena. Nunca foi preciso abri-la. Já a sabia. Sempre a soube.

11 fevereiro 2006

Carta da Índia


Para todos os que se escondem no silêncio


Dou-te o selo, escreve a carta. Parte. Vai para a Índia. Escolhe um lugar onde o mundo se faça longe. Um lugar populoso e chuvoso. Foge das mansões. Levas o selo e o envelope. E escreve, escreve uma carta antes que morras . Talvez lá a tua morte não se saiba, mas seguramente se saberá das tuas palavras. Escreve. Diz. Não teimes o silêncio.

Escreve uma carta e deixa chover as palavras todas que ao longo do tempo nunca disseste. Deixa-te chover. Já pouca importa na vida as coisas que não disseste. Nada altera o curso do rio. Estão feitas as mortes. Estão cicatrizadas as feridas. Quase esquecidas, as alegrias. Já pouco importa, por isso se pode procurar a brisa quente. A chuva grossa. O calor húmido.

Abre a janela num lugar que encontrares na esquina de uma rua branca. Liga a ventoinha. Fuma o último cigarro do maço. Alisa as folhas e escreve a azul. Não caías na tentação de datar a carta e não a ouses a destinatário algum. Tira a camisa, que está calor. Não, não... não digas “ minha querida” que assim, será fingida a carta.

Começa na primeira palavra das que nunca disseste. Começa devagar, hesitante, inseguro... risca, reescreve, apaga. Mas diz, uma a uma, as palavras que nunca disseste desde o começo do mundo.

Transpira. Chora. Adormece sobre as folhas as horas cansadas. Mas diz. Tudo. Chove. Chove-te.

Ninguém é capaz de levar pela vida tanta coisa por dizer. Tanta coisa por dizer-se. O silêncio deve ser um lugar, nunca um esconderijo.

Quando acabares, dobra as folhas e mete num envelope. Passa o selo pelos lábios. Pousa na mesa junto à janela. Deita-te sobre a cama e adormece.


Quando voltares, de pouco interessa que te tenhas esquecido dela, a carta, na Índia.

10 fevereiro 2006

Sussurro

" ( ... ) tímido, a sua ousadia máxima constituía em envolver-se num segredo"

Maria Gabriela Llansol, " Contos do Mal Errante "

09 fevereiro 2006

Mas...





Já é Manhã. Acabou o depois. Mas...ainda não conto. O verdadeiro engano.

Depeche Mode



Pensam que eu venho falar de Depeche Mode... eu fui, eu fui ! ... mas ainda não. Muito bom. Mas ainda não, ainda não.

Falo de outros concertos memoráveis, David Byrne no Coliseu de Lisboa talvez 2003. Que arrepio de concerto e de homem. Também Nike Cave no CCB, menos pelo concerto mais pelo porte do homem. O copo do vinho, o cigarro aceso e um homem feio que em jeito avassalador de pose, me levava.

Tenho ainda um concerto que isolo dentro de mim. Coldplay em Novembro. Porque me aconteceu quase como um ritual de retorno ao mundo, porque estivemos tão perto do céu no topo do 2º balcão, porque dançamos, porque bebemos muita cerveja e porque me deixou a imagem perfeita e rara que nenhum outro concerto me deixou: a imagem do casamento. Explico.Os meus grandes amigos, casal, dançaram como só dançam aqueles que se amam assim num concerto, no meio de milhares. ( devia ter escrito isto de jeito mais bonito, porque eles e a imagem o mereciam!).

Pois é... Depeche Mode esta noite. Eu fui, eu fui. Depois conto...Manhã.

" enjoy the silence "

08 fevereiro 2006

Enfiar a cabeça no cobertor

Fechei a alma. Tenho-a demasiado sindicalista para a abrir ao manifesto. Qualquer que fosse. E tudo, porque hoje só encontrei cretinos pela frente. Gajos que definem estratégias e coçam os tomates quando falam com a secretária. Gajos que levam o dia a ler jornais e são assalariados pelo topo. Gajos que levam o pente no bolso quando vão falar com a autoridade máxima. Desses assim, que cheiram a ranso, que debitam vulgaridades escapadas entre as cáries, que tem fundo são de parolos mas manhas de citadino forçado. Desses que trepam em tudo, menos na mulher. Mas hoje a alma não se predispôs à sua habitual tranquilidade e bonomia. Á sua, também habitual, serena contundência Eriçou. Virou sindicalista. Espumou. Prepara manifesto. Baicota. Faz greve. Fecha ao mundo.


Lanço repto: há por aí alguém que não seja cretino para me aparecer amanhã no mundo ?

06 fevereiro 2006

Engano de Identidade


Hoje acordei e enganei-me na identidade. Fui parar na porta ao lado. A outra história. Calhou-me um estupor para coabitar. Sim, que isto de ter um homem de quem falar costuma dar resultado... calhou-me um estupor, daqueles que não parecendo o são. Um charme: voz aveludada, postura elegante, corte de fato irrepreensível. E mesmo em versão desportista não há alinhavo a apontar. Acontece que o apanhei, no meu engano de identidade, a fazer a barba da manhã. Anguloso ao espelho.Vaidoso a mirar. Achei prematuro inquieta-lo e saí pela porta em surdina dizendo apenas “ até logo, querido “.
Confesso que andei quase feliz com esta troca de identidade que me fez ter um homem a cheirar a anúncio de revista, que me fez sentir quase feliz como se tivesse ganho a carta do leitor do mês de Março. Feliz pelo acaso feliz de me ter calhado uns braços imensos para o enlaçar, um corpo perfeito para percorrer milímetro a milímetro , umas mãos irreprensíveis que sabem de cor o braille da mulher. Espetei mais o peito em sinal de elevação da personalidade, inclinei-me mais do que o apropriado na secretária do chefe, como quem se inclina sobre a excitação de tamanho segredo, e corri à hora de almoço a tratar do pé, da mão, do buço e da sobrancelha. Gastei o que não tinha no vestido que não me servia.
Achei apropriado chegar cedo a casa. Esperei. Esperei muito. Compus-me e descompus-me. Queria que aquela fosse a porta certa da errada que entrara pela manhã.
Chegou. Deu beijo a gretar frio. Atirou o casaco para o bengaleiro. Perguntou pelo jantar enquanto desapertava o nó da gravata pelo corredor. Falou sem se perceber do fundo do quarto. Voltou á sala e ligou a tv. Refilou da demora, do vestido que não é para mulher dele, da falta do pelo. Resmungou. Resingou. Não mais falou.

O homem a cheirar a anúncio de revista, mudara de página e parecia-lhe a referência da carta da leitora do mês de Março subordinada ao tema “ diga da sua dor... “.

Foi com essa carta que ela ganhou o concurso e teve assim direito a um ano de assinatura da revista feminina. Por um engano de identidade. Por parar na porta ao lado, que era a dela.

Blogobebedeira

(...) sempre gostei da travessia das noites e das pessoas
e de beber
muitas vezes nem sei quem são as pessoas com quem falo (... )

Al Berto

O Cerco



" Já faltou mais para que um dia destes tenha de passar à clandestinidade ou, no mínimo, tenha de me enfiar em casa a viver os meus vicíos secretos. Tenho um catálogo deles e todos me parecem ameaçados (...)"

Miguel Sousa Tavares, Expresso de 4 Fev 2006

03 fevereiro 2006

A morte engana


A morte é enganadora, porque mais que a perda, a eternidade e a irreversibilidade ela é contaminadora. A morte de alguém. Na morte dói a saída do tempo, o não mais habitarmos um tempo, as mesmas palavras, o mesmo toque ou o mesmo conhecimento. Aqui, a morte é uma ausência intangível. Aos mortos, levamo-los de fora para dentro. Talvez seja assim... as mesmas portas que se abrem à tristeza e à exteriorização da dor, serão as mesmas que os deixam entrar em nós. E ficamos com eles por dentro da pele, por dentro do silêncio, entre um sussurro. É assim que a morte se nos apresenta, irreversível.

Mas é enganadora, a morte. Porque mais que irreversível ela é contaminadora. Cria ausências insuspeitas em territórios em que não seria expectável.

Tenho com frequência o sentir que nunca mais a vida será a mesma depois da morte da minha avó. Parece que ficou mais perto a linha do fim do mundo. Quando me acontecem coisas felizes ou coisas tão pequenas como um olhar atento, é-me recorrente dizer por dentro “ ela já não sabe “...e a perca deste referencial faz com que toda a vida assente sobre menos um pilar, menos uma certeza, sobre mais uma saudade. Tudo se redimensiona assim.

Não é só o que se perdeu, é o que muda. E nisto é que a morte é enganadora.

Engano Azul

Chegou Fevereiro, reparei agora com tanta chuva. As estradas estão alagadas.Deixemos o azul e façamos o engano.Fevereiro será o engano. Não me ocorre nenhum agora, mas terei o mês todo para o enganar.Passo do azul ao engano e azul enganador só o encontrei mesmo no Bombay. No meu gin de eleição, esse da garrafa azul.
Este blog começou exactamente como um engano azul que já não é. E eu deixei-me estar, azul e agora enganadora.
Fico pelo engano na chuva, por ora.

02 fevereiro 2006

Afectivamente

Tenho vários amigos que aos trinta ainda não tem a vida afectiva resolvida. Curioso observar o que cada um faz com essa falta, com esse bocado de ausência e como cada um a resolve. Reconheço três espécies deles. A saber:

Há aqueles que perante o facto, o tomam em mãos e o resolvem com urgência de não deixar parecer um falhanço, uma precariedade individual. Dizem que é o tempo de. Não lhes interessa como lá chegaram, que histórias ficaram na pele, que coisas ficaram por resolver. É o tempo de. São aqueles que se decidem a uma mulher. Não a encontram, decidem-na. Conheço casos extremos de quem , traiçoeiramente, se tenha apaixonado por outra mulher mas tenha persistido na facilidade de se casar com a mulher decidida. Resolvem. Mas levam a vida no fingimento de que a afectividade resolvida ficou. Convencem alguns de que isso é verdade. Não convencem outros. Socialmente fugiram desta amostra, mas eu teimo em inclui-los. Deixo-os na observação de quanta bravura, de quando tempo leva a contrariedade, de quando acontece o percalço, de como se acaba, se acabar, o fingimento.

Depois, há aqueles que já encontraram a mulher da vida e a perderam. É por isso que chegam aos trinta sem a afectividade resolvida. Sabem com contornos bem definidos o que pretendem duma relação. Tiveram tudo e tudo perderam. Não se assustam com o tempo nem a idade mas confortáveis também não estão. Abrigam-se na ideia de liberdade e independência. Fazem-se imensos, tem o ar feliz de quem feliz é. Defendem a precariedade e a fidelidade da alma. Mas cedem à tristeza sem que ninguém saiba. Sem que ninguém ouça. Gostariam de acreditar de novo que é possível. Encontram outra mulher e fazem nessa relação uma tangente a essa possibilidade. Vivem às vezes felizes. Outras com um vazio pequeno.

Há ainda aqueles que persistem, teimosamente, em esperar. Aqueles que de um jeito bonito, não cedem à facilidade e esperam. O tempo todo do mundo. Porque não permitem que qualquer mulheres lhes faça a vida. Vivem agora a angústia das noites por fazer, da companhia que não há, do afago que não tem... mas vivem convictos de que um dia, qualquer que seja a idade, tudo isso lhes está reservado por inteiro.