Bombay

Azul Enganador

30 março 2006

Cruzamento


Foi contigo que me cruzei ?

Não sei porque não me vi. Passei a arfar na rua, prendi o tacão na calçada, encurtei o tempo que não tinha. Não me vi, mesmo.


Foi contigo que me falei ?

Não sei porque não me ouvi. Disse e a seguir esqueci e disse depois a seguir à frase anterior. No meio acendi o cigarro. Molhei os lábios. Não me ouvi, mesmo.


Foi contigo que me encontrei ?

Não sei porque não me soube. Tirei o BI, pousei a identidade no balcão, tive ainda tempo para pensar ser outra e a seguir assinei. Não me soube, mesmo.


Foi contigo que me perdi ?

Ah, já sei. Foste tu, o tempo. Cruzei-me contigo, à bocado, na rua mais sombria destes dias. Falei-te em sussurro. Devo ter dito “ ainda bem que te encontrei... preciso de ti. Muito de ti. “

27 março 2006

Linearidade e Normalidade

Somente as relações lineares são detectadas pelo coeficiente de correlação. Nos dados abaixo, mesmo existindo uma clara relação (não-linear) entre x e y , o coeficiente de correlação é zero.


Vem isto a propósito da clara relação entre a luz de prenúncio de verão e a alma.Costumam ter um coeficiente de correlação intenso. Linear. Vibrante. Azulado. Mas o tempo escasso não me tem permitido a linearidade deste primeiro assombro de luz. Ficou concava, esta relação. Não linear. Existindo essa clara relação entre o x e o y, o tempo não ma permite, tornou-a não linear. Por pouco tempo será, esta relação que ironicamente se chama de normal.

26 março 2006

Roubaram-me uma hora


Hoje roubaram-me uma hora. Não sei dela. Tiraram-ma da cama, acabei a chegar atrasada ao café quente da manhã, procurei-a e não a encontrei mais. Até ao fim do dia, cinzento e ventoso, altura em que dei por encerrada a busca. Definitivamente roubada.

Não sei assim como acertar a memória, não sei agora em que hora encontrei o meu amor e fiz os filhos, não sei já em que tempo. Paciência. Hei-de encontra-la... seguramente. Muito mais tarde, voltará. Para trazer a noite mais cedo, o recolher mais quente e nessa altura aparecerá ela, metida na minha cama. Como se nada fosse. Como se não se tivesse passado mais um verão.

25 março 2006

Tu mereces...


Estive a pensar... “tu mereces”. Disse-te.

Não te revelei a marca do pó de arroz nem te disse dos pecados. Mas estiquei a toalhita e na mesa pus o chá. Como assim, como assim... abri o tinto. Tu coraste e eu corei. Tu fugiste com os olhos e eu fitei.

Falaste da guerra e da missão nas colonias, das mulheres todas que não tiveste em saraus na casa do governador. Sim! Porque para atestar da boa conduta e da honra impoluta, sempre me referiste da proximidade ao governo e ao governador....mas não foi isso que mais gostei em ti. Tu mereces. Eu digo. Foi mesmo o ter reparado que tiravas os sapatos, sorrateiro debaixo da mesa, nas reuniões das ex- Meninas de Odivelas na qual eras o patrono de afeição. Que charme isso te conferia, confesso agora. Que pequeno gesto insurrecto que me fazia imaginar os grandes de que serias capaz....

Como assim, como assim o vinho bebeu-se. Tu coraste e eu corei. Amarrotou-se o decoro na conversa. Puxaste da cigarrilha. Não chegamos ao passe doble, apesar de teres a postura a jeito... Estive a pensar... “tu mereces”. Fui buscar do meu diário, pequeno e pudico, e deixei-to nas mãos. Podes ler, disse-te.
( o que estás a fazer agora mesmo ?)

22 março 2006


esqueci os sapatos por isso, não posso correr para ti.

20 março 2006

Composição de Acasos


Tenho um livro antigo,meu desde fevereiro 1987, a que gosto de me encostar. Chama-se “ contos do mal errante” de Maria Gabriela Llansol. Hoje fui busca-lo e com surpresa descobri na última folha, escrito a lápis por mim:

Desenho a Carvão

e no entanto o silêncio
essa aldeia erótica

a chávena e o púbis
de café
na colher dos lábios

na mesa da manhã
quase extinta”

de Moisés Belo Gama.

Sei-o vagamente de um tempo tão antigo como o livro. Nunca mais.
Fui depois buscar Egon Schiele, esse homem descoberto um verão em Viena. Que gosto. Gosto muito.

19 março 2006

Opção


Se da chuva não temos opção, deixo-te a do tempo. Hiberna, desliga ou reinicia.

Se da chuva continuamos a não ter a opção, deixo-te a do amor. Hiberna, desliga ou reinicia.

Se da água-forte não temos opção, deixo-te a da memória. Hiberna, desliga ou reinicia.

Se do vento não temos opção, deixo-te a próxima semana. Hiberna, desliga ou reinicia.

Ou cancela tudo. Mas deixa chover. Resguarda o vento.








dança
chove
leva

enrola
ama
mata
Julião Sarmento

16 março 2006

Perturbante Conversa de Mulheres


As palavras dos homens sempre me foram mais fáceis, mais ásperas mas no entanto mais simples. As palavras dos homens saltam na pressa do tempo.

As palavras das mulheres sempre foram mais redondas, mais invejosas, mais obscuras. As palavras das mulheres pedem mais tempo. Algum vagar. Muita decifração.

Sempre tive conversas interessantes com homens e mulheres. Com os homens, foram as conversas em si ou o pretexto delas que se tornavam interessantes, desafiantes e até estimulantes. Com as mulheres, mais do que a conversa em si, era o exercício da identificação e do sentimento o que as tornava interessantes, perversas e igualmente estimulantes.

Esbatem-se as diferenças nas conversas com os íntimos. Sejam homens ou mulheres. Passam a outra espécie de ser, feita de uma matéria mais indivisível e mais quente.

Aconteceu-me hoje uma conversa, em redor de uma manhã hesitante no chuvisco, com mais duas mulheres. Uma tertúlia de conversa instituída por três mulheres de que gostam ainda do gozo de, periodicamente, chegarem tarde ao emprego e se sentarem em frente ao mar. Aconteceu esta manhã.

Aconteceu na conversa de hoje que as palavras simples, que algumas mulheres com o tempo apreendem a saber, foram ao fundo do mundo. Aconteceu hoje pousar a verdade imensa e sombria numa conversa, tal como se pousa o maço de cigarro no cimo da mesa ou se deixa o corpo no lugar da cadeira. Com a mesma naturalidade. Como se essa fosse a ordem do mundo em frente ao mar. Não é, e o mar sabe.

Uma conversa redonda e directa. Com o bom das conversas com os homens, com o bom das conversas com mulheres. Uma estranha e perturbante forma de falar. Íntima sem intenção de o ser. Dura, de sentir doce. Profunda de jeito leve.

Perturbante conversa entre mulheres. Como nunca reparei que podem as mulheres, com a idade, falar assim? Será que o tempo faz, às mulheres que se permitem, as palavras todas? ... Será que com as palavras todas, as mulheres que se permitem, as desapegam com vagar? Certa da verdade mas não da sua universalidade.

Deixou-me um mar ainda uma outra explicação. Os filhos. Mulheres que deixam filhos vir ao mundo saber do mar, deixam vir ao mundo tudo por dentro. Apreendem depois a dize-lo.
( imagem: Paula Rego )

Retrato Oficial - também quero!

Paula Rego

Desvendada Page 24

Eu quero. Tu deixas. Eu gosto. Tu fazes. Eu acendo. Tu apagas. Eu digo. Tu calas.Eu parto. Tu voltas.Eu rolo. Tu quietas. Eu mordo. Tu acabas!


Excerto do diálogo " Na cama com... " entre o Socrates e...

15 março 2006

Page 24

Heis, um bocado, do que não perder na página 24 da Flirt. Pena que a font seja Webdings !


Eu quero. Tu deixas. Eu gosto. Tu fazes. Eu acendo. Tu apagas. Eu digo. Tu calas.Eu parto. Tu voltas.Eu rolo. Tu quietas. Eu mordo. Tu acabas!

13 março 2006

Calor


Só me ocorre revelar assim a forma como me exprimo com a chegada do calor e da luz mansa.

Porque é mesmo isso: um flirt. Este tempo é um flirt imenso...

( Don't miss - page 24!)

12 março 2006

Só coube na cama


Esqueci-me de atender o telefone. Podia ser o mundo a chamar por mim ou só alguém a falar-me de um amor. Mas também me esqueci de lembrar do mundo e de acomodar o amor aos conceitos.

Esqueci-me de atender o telefone. Podia ser o mar a bater em mim ou só alguém a falar-me da morte. Mas também me esqueci do cheiro a sal que o mar deixa depois de bater e da morte não lembro como se diz.

Esqueci-me de atender o telefone. Podia ser o livro a dizer que tinha acabado o poema ou só alguém a dizer de alguém. Mas também me esqueci das palavras e creio, mesmo, que pus o ponto final no inicío da frase e de alguém a dizer de alguém já não lembro a voz.

Esqueci-me de atender o telefone. Podia ser a casa a dizer-me que nela estava, que o café fervia ao lume, que as portas deixavam a luz da primavera aberta, que a roupa estava por lavar... efectivamente podia ser a casa a dizer-me que me tinha. Mas esqueci-me da casa. Hoje só coube na cama.

09 março 2006


Este é para a Xu.


Alguns lugares fora da estrada, obrigam-se. Alguns encontros fora do traçado, impõem-se.


Há um tempo certo para se fazerem os amigos eternos. Depois, fica o tempo para se fazer amigos que podem ou não vir pelo tempo. Segue-se o tempo de destrinçar os amigos das pessoas interessantes que se encontram. Até, talvez, se perder a paciência de acomodar mais gente à alma ou à vida. Aconteceu com ela um desvio raro. Uma empatia pequena e quente, feita com vagar, fez-se numa certeza. Essa mesma, a da raridade. Ela, é como os meus amigos eternos. Encontrei-a longe desse tempo certo, mas encontrei-a no tempo em que tinha já a capacidade de saber que há certezas que não necessitam de formas, que há proximidades que não carecem de intimidade, que há jeitos de gostar muito com tão pouco. Aconteceu com ela.

Mas é mesmo para a Xu. Porque descreve perfeito o jeito como ela vai, em breve, sair da estrada. A excitação do desvio. Admiro quem faz stops ao lado da curva.

08 março 2006

Uma a Uma


Penduro uma a uma, com mola no cordel, as palavras soltas. Cada uma não faz um texto mas um pedaço. Falta-me o tempo que faz espaço para essa ordenação vagarosa. Resta-me então pendurar, uma a uma, as palavras. Meto, entre elas, algumas músicas e um resto de chuva. Também é bom pendurar o vento.

Nada faz deste exercício uma história. Apenas a existência das palavras e a ausência de vagar de as cerzir. Não tenho tempo. Mas tenho palavras. Penduro uma a uma no cordel da espera.

07 março 2006


O preto e branco contorna bem esta vontade. Ser elegante. Apeteceu-me ser elegante. Fiz uma pausa porque me deixei na mesa da esplanada a olhar o mundo. Podia ser Paris, mas não. Era tudo a preto e branco. Pintei os lábios de encarnado e fiz o vagar.


...



Agora podemos falar. Apetece-me começar uma conversar. Quase sépia. Persisto na elegância e mantenho-me no preto e branco. Podia ser Paris, mas não. As palavras começaram encarnadas em voz quente e ficarão em estilo, preto e branco. Diz... é tua a primeira das palavras. A minha elegância, hoje, começa em ouvir. Diz... com estilo...

03 março 2006

Na terra seria uma falha.
No silêncio seria a palavra.
Na palavra seria o silêncio.
Na hora seria 00h00.
No amor seria o amuo

Num carro seria ponto morto.
Num filme seria o intervalo.
Na televisão seria a publicidade.

Na loja seria o “ volto já”...

02 março 2006

Selo de Carro Velho


Serve este selo para mandar uma carta ao meu carro antigo. Verde e velho. Estafado. Descobri hoje que sou uma saudosista, custou-me deixa-lo em 222 000 Kms de histórias.

Gosto de andar de carro, de fazer estradas, de ouvir música nele, de pensar em rodagem. Não os tratos com delicadeza, trato-os com a rudeza de quem trata os que nos são íntimos. Custou-me deixa-lo, pese embora me ter deixado ele, num amuo cansado, à boleia da assistência em viagem a fazer conversa com o reboque e o homem do reboque. Depois, deixou-me sem vidro, obrigou-me forçosamente a dar boleia ao frio de Janeiro. Velho, tinha os seus caprichos! Mas tinha o jeito tão ao meu jeito, tão conivente, tão cúmplice...Deixei-o para morrer e isso custou-me. Crio vínculos estranhos de alma.

Tenho um novo. Cinzento limpo. Não me perguntem pela alegria...fomos só hoje apresentados. Dissemos “olá, estás bom?”. Notei-lhe um ar um bocadinho empertigado. Por sua vez, eu sentei-me nele com a frieza devida de quem não permite desde já muita confiança. Ele que me conquiste, se ajeite, se deixe, se faça. Que me aconchegue.

Hoje a carta é para o velhinho com o selo que por, negligência e preguiça, não lhe comprei neste último ano. Não recomendável, bem sei. Mas também nisso, nessa ousadia traquina e tonta, ele me era cúmplice. Nunca se deteve aos pés da polícia e sempre me levou a mim mais a sério do que à voz da autoridade. Tirei-lhe um retrato, esta manhã. Saudoso carro velho.