Bombay

Azul Enganador

28 abril 2006

Um corte ao meio...


Reparo agora , nos comentários dos homens, sobre as mulheres de mais de 40 anos.

“ está estragada de rosto... mas bem de corpo “

estranha segmentação. Qual faca que corta em dois. Dois planos.

27 abril 2006

Agapantos


Tempo em ordem. Quente. Tempo de agapantos.

Trabalhei muito anos com uma janela de agapantos. Apreendi a proximidade de maio pelo seu florir. Brotavam lilases em prenuncio de tempo quente e alma rendida. Era uma janela bonita, essa. Imensa. Esperava quase um ano pelos agapantos.

Vinha em Maio minha avó. Deixava-se doce a saborear a sombra do calor na varanda da casa. Todos os retratos dela tem os mesmos agapantos de fundos. Os de minha casa. Sabia da proximidade da sua vinda pelo brotar deles. Já não vem minha avó mas os agapantos teimam em nascer.

Também já não trabalho com a janela grande. Outros ficarão com o olhar dos meus agapantos.

Tempo do tempo quente que deixa um vestígio de calor nas noites. O tempo em ordem. Tempo de agapantos.

25 abril 2006

História Simples

Acabei de ler uma história de amor de um amor que morreu em terras quentes e húmidas de guerrilha. Choveu muito e quente no final desse livro. Fiquei encharcada.

Sentei-me na mesa ao lado de um escritor. Paul Auster. Era noite e o tinto encorpado. Quase tanto quanto a voz dele. Assim, descobrir a mesa de um americano errante no mundo.

Comprei um livro hoje, depois de acordar tarde e estender a preguiça no sofá. Tomei café na livraria e trouxe a “Correspondência entre Sophia Mello Breyner e Jorge de Sena “.

Mas comecei a ler outro. Um que a amiga deixou cá em casa ... não tarda e creio que estarei em Buenos Aires.

Aguardo que acabem de ler um livro vivamente recomendado para quem tem filhos. Disseram-me assim. Folheei e gostei. Aguardo a vez. “Como um Romance” de Daniel Pennac.

Trato, pelo meio, da festa de domingo à noite na praia. Que vontade de uma festa assim, feita de frio de mar, numa praia... reservo a alma e penso numa prenda bonita para levar. Penso na amiga que também hoje faz anos e de como é bonito tê-la reencontrado tantos anos após a última vez. Que livro lhe posso eu oferecer ? Pergunto com prazer.

Vou continuar a começar a ler o livro que no pousaram na madeira da mesa, o livro que me levará não tarda a Buenos Aires. “Borges e os Orogotangos Eternos “ do Verissimo, Luis Fernando.

“ Sempre escrevemos para recordar a verdade. Quando inventamos, é para recordá-la mais exactamente”.

23 abril 2006

post it intenso

Tenho andado perdida nos livros, nos amigos, na chuva errada, nos abraços, no tempo, na casa cheia, no sol à porta. Cheiro a mar e tenho andado perdida a viver.

Perdi-me primeiro nos livros. Desencaixotei, montei e encaixotei uma feira do livro na escola das minhas filhas. Cheirei o papel dos livros, roubei palavras, conheci e admirei o António Torrado, vivi a alegria dos pequenos a descobrirem livros.

Não sobrou tempo e lá estava eu a abrir a casa . Não tardou a chover errado no dia que não podia ser. Chegaram os amigos para os abraços guardados de anos, para as palavras que pingaram, para a tarde a abrir mas fria, para os filhos a correrem, para a viola que gemeu. O ciclo do eterno retorno.

E de novo enfiei os amigos no chão da casa, empoeirada e desarrumada, se pôs a mesa se ficou pela noite, se fumou o cigarro para depois dormir.

Acordar de frente ao mar. Tão cheia de luz e certeza. Pousei agora. Sentei-me. Feliz.

19 abril 2006

Chegar. Compor o jeito. Afagar. Tremer palavras e esperar a firmeza. Cheguei.

14 abril 2006

Algures no mundo se deixa o cansaço

- Estou cansada, disse.

Sentei- me então no pátio quadrado onde a chuva caía forte. Há a humidade e o vento quente. Vim até aqui no último comboio da noite. Pensei na vida, até aqui. Levei o tempo a pensar na vida... nas coisas fortes e aromáticas que me aconteceram, como acontecem em qualquer vida, bem como nas coisas tristes e doridas que qualquer vida tem. Deixei tudo e trouxe a vida.

Sentei-me eu e ela, a vida, neste pátio de pensão. Deixo que a chuva me molhe. Deixo que a chuva chore por mim. Todas as vidas tem noites destas. Em todas as vidas se procuram lugares quadrados para nos sentarmos com ela.

Procurei o pátio da pensão das putas, no fim do comboio. Vim encostar-me ao amor e à chuva. Será que é aqui o fim do mundo ?

Estou cansada... será que aqui há barcos ? que partem daqui navios ? que há um porto perto da pensão da terra quente e húmida ?

Quero partir. Numa palavra só. Não sei qual...

10 abril 2006



Good Night, and Good Luck

08 abril 2006

Moleskine


Também eu tenho um Moleskine e suspeito que contém uma normalidade mais suave e interessante que a do Moleskine do Primeiro-ministro em reuniões semanais com o Presidente da República.

No meu Moleskine negro escrevo a verde. Um verde bonito e forte de caneta uni-ball eye.

Vou abri-lo hoje. Não assinalo nada. Deixo-o aberto ao ar. Porque hoje, não havendo nada a assinalar, dormi a manhã toda, deixei o cabelo a molhar água, abri a janela da casa inteira, deixei a luz pelo chão, tomei o café com vagar. Sentei-me a folhear a Sábado,

“Quarentonas falam de Sexo – 50% das mulheres acima dos 40 anos afirmam em estudos científicos que querem sexo mais do que nunca. Histórias de portuguesas maduras desejadas por homens muito mais novos” e remeti os comentários para dia posterior dado que hoje estou com alma de papel a absorver ar, vagar e azul.

Escorrego depois no vagar de folhear a Única. A Inês Pedrosa sabe e fala hoje mesmo, na Crónica Feminina, na “ (... ) Porém, cada vez que a Primavera se aproxima – mesmo que tímida, embrulhada em nuvens e chuva, com tufos de giesta irrompendo em cada retalho verde da cidade – voltamos a planar sobre a Terra com a alheada concentração dos adolescentes. A uns dá-lhes para viajar, a outros para amar desvairadamente, a outros para virar a casa do avesso, que eu sei. A mim dá-me uma vontade irreprimível de estudar, ou seja, de pensar na morte – mas agora com a sofreguidão ao avesso. Em vez de me atirar a tudo o que me falta fazer, dedico-me a estudar matérias que me interessam porque não me servem para nada. A ciência específica da Primavera é essa, a de que só o que não serve para nada, só o que não tem propósito nem se inscreve em nenhuma espécie de competição, amplia a nossa experiência existencial. Pois com quem competem as inesperadas giestas? (...) “
Misturo estas mesmas sensações com os trabalhos de casa das crianças, as tentativas de palavras, a aritmética do “vai um”, com os ruídos de pássaros, um alarme longínquo que chega a parecer a sirene de nevoeiro nas manhãs de praia do norte, a terra que fala com o calor.

Tenho a pele a respirar. Milímetro a milímetro. Respirar sobre as partículas indivisíveis da vida. Era este o vagar que precisava. Começo neste assombro de sentir sobre o quase nada. Nada a assinalar no Moleskine mas tudo a fazer sentido no respirar.

05 abril 2006

Para dentro, olhar

04 abril 2006

Contabilidade


Devo, devo-me e devem-me:

Um vagar a M, para uma conversa, o resto da história, o que falta da alma, o copo de vinho;

Um encontro com D e M, de pincel, para a arqueologia dos afectos e das memórias com cerveja e tremoço de preferencia;

O fim das histórias infantis que escrevi e deixei adiadas na página onde cresce a erva daninha dos desenhos das filhas;

Ao vagar de ter as coisas sentidas e vividas por inteiro e retira-las desta intermitência do tempo onde elas cabem – não usar a estrada para o resto da conversa que começou ontem e acontece amanhã, não deixar recados e neles palavras para as coisas não esquecer, não marcar nas páginas seguintes da agenda as coisas de sempre.

Devo, devo-me e devem-me uma noite longa, um vagar de jantar, um encorpar de tinto, e o resto é dançar, dançar até ser manhã e doer o corpo de noite.

Haver:

Tenho a haver apenas, tudo o que me devo. Tenho a certa da troca deste tempo pelo outro. Tenho ainda a certeza da teimosia de assim ser. Porque tenho a certeza que é um ciclo, uma fase, um bocado lascado de tempo que faz acontecer esta indisponibilidade, mais do que um querer. Como um filme a fugir da bobine, história acelerada.

Diz-me o vento que há-de bater de sul o tempo que voltará a ser tempo. Com recorte de vagar. Com a história a acontecer imagem a imagem na mesma cadencia das marés. Porque assim se faz a vida. Desacertos declarados em declaração de rendimento de alma.


Como pode Abril...

És um homem simples. Vejo-te todas as manhãs, as mansas, a fazer palavras cruzadas.

Contaram-me, há dias, de ti uma história engraçada: que continuas a usar, e assim te soube sempre, pelo nome/apelido da tua primeira mulher. Da mulher que já não tens na tua vida, que dela saiu em separação. Conheço-te pelo nome que não é teu mas de uma mulher que amaste.

Tinhas agora mulher nova. Um amor tenro. Um filho novo. Morreu o teu amor hoje, soube. 28 anos. Morreu ontem no hospital e não to disseram. Foi hoje, quando ligaste nesse vagar das horas mortas em que te via fazer palavras cruzadas.

És um homem simples mas a dor é igual em todos. Como pode a vida levar o teu amor assim?