Bombay

Azul Enganador

30 maio 2006

Cheiro forte a café


Com cheiro forte a café sustenho as horas na hora de partir. Estrada acima no fim da noite. A tempo de chegar para me despedir de ti. Como se fizesse sentido haver tempo para chegar, quando se vai ter com a morte... estás no outro lado do tempo, o desconhecido, e eu deste sei apenas que jamais sentirás a maresia frente à casa, a trovoada no mar, o vinho tinto a abrir no copo e o filho a crescer e o amor a envelhecer. Somo infinitos de ausências pequenas que não terás. Comovo-me. Por ti. Por mim que as tenho ainda presentes e quase esqueço. Como eu ainda tenho tempo, como tudo em ti deixou de ter tempo. Ambos saímos, pela manhã, de casa e só eu voltei. Tu caíste no chão e inexististe e eu continuei trémula no fio que sustem o tempo, lúcida da precariedade de cada nova manhã em que, como hoje, saímos de casa. Eu voltei. Tu inexististe.

Colada ao cheiro quente do café para que a estrada me leve a tempo de chegar para me despedir. Pelo afecto, pela admiração. Porque esta será a última intercepção possível. A tangente que rasa o respirar e o não respirar. Vou. Vou ver o mar a última vez, por ti.

23 maio 2006

Na cama com...


Maria descasca laranja como quem descasca a vida. Pousada na cama, cheiro doce no ar, pensa na vida. Amor noivado, casado e traído. Filhos feitos, criados e idos. Corpo bonito e cheiroso que arranjou segredos maiores no recôndito das curvas.

Maria saiu à rua depois de roupa engomada, chão lavado e batom posto. Comprou querosene na drogaria, pastel na confeitaria, meia de vidro na D. Lina. Trocou saudação com vizinho e filho de vizinho. Fez vénia ao chefe da repartição, acenou a amiga da primária na época dos laços e caracóis, endureceu o rosto aos estivadores da taberna. Seguiu firme pelo passeio, posta na sua dignidade de mulher feita e cumprida.

Entrou no café, comprou cigarro para o marido, arrebatou revista de estrelas de cinema, pagou sem direito a troco. Lascou verniz da unha no fecho da carteira, posta e esmagada entre o braço rolinho e a covinha do peito. Seguiu direita e hirta pelo passeio de arvoredo na rua da casa herdada do sogro. Casa modesta mas limpinha.

Fez jantar, pôs a mesa, alindou os retratos de casamento da estante da sala, abriu janela à brisa do entardecer, deixou perder a luz, contou as horas devagar, esperou, esperou. Quitério telefonou enfim. Que não, não poderia ir jantar, afazeres no escritório.

Maria despiu-se, deitou-se na cama e descascou laranja como quem descasca a vida. Abriu gomo a gomo a laranja. Amor casado, filhos feitos, casa posta e composta, saúde sem pregar partidas... gomo a gomo, com cheiro doce impregnado nas mãos. Ligou a telefonia e ouviu balada de amor... quem dera ter direito a história de suspirar!

Tão lisa sua vida. Tão curvo seu corpo.Tão vazia sua noite. Tão lisa sua vida... como lençol esticado na cama que a suporta. Que pecado este de ousar pensar que a vida que falta não vai esticada no fio da vida de sempre... que lhe poderá acontecer para que assim não seja? um acaso pequeno na esquina do mundo. Mas será que? Balada acabou, Maria suspirou. Pecado este de quer indecência na vida.

A janela do quarto está aberta, a brisa entra manhosa, a luz faz passar a imagem de corpo nu. Maria aquece entre as pernas, muda botão à procura de mais baladas, continua a descascar, gomo a gomo, a laranja como a vida.

21 maio 2006

Miss Helen


Sempre tive o hábito, de em dia de aniversário, me fotografar sem me ver. A casa era grande, o quarto da música guardava-nos com cumplicidade e eu fechava a porta, trazia o espelho e brincava com o rolo a preto e branco. Não era um jogo narcisista nem uma tentativa subliminar de me encontrar. Era fazer comigo o prazer de fotografar ( um prazer antigo e levado de forma vadia) . Era tornar-me objecto do meu próprio olhar. Do espelho. Do ângulo. Da luz.

Mas o que mais gozo me dava neste exercício de usar as horas em dia de aniversário era mesmo, depois de reveladas, colar as fotografias em folhas brancas e escrever “ Parabéns, Miss Helen “.

Não sei quando parei de o fazer. Hoje acho bonito ter esses vestígios de mim.

Para poder inseri aqui a imagem tive que fazer vários “resize”, por forma a deixa-la compatível com a capacidade exigida. Achei divertido... resisze é mesmo o que o tempo fez, e esta perca de definição e aumento de grão é mesmo o que o tempo fez da beleza que, depois de perdida, soube.

19 maio 2006

(Daniel Blaufuks)

Nem eu mesma sei porque ainda persiste este blog.

Começou pelo silêncio de um azul enganador, porque nasceu para ser a forma de responder a uma amiga, olhos azuis cabelo negro, da qual descobrira ter também um blog numa sexta-feira de chuva e de inverno.

Na estrada, pela noite, a ideia ocorreu-me e entusiasmou-me. Gostei da perversão azul e de nela respeitar o segredo dos amigos. Tentei e ele aconteceu fácil. Estava feito o Bombay que me é o azul mais enganador e mais fácil. O do meu eterno gin.

Estava, na altura, com mais dois amigos, um dos quais a dita mulher azul, a conceber a ideia de termos um blog a três. Assim aconteceu. Tive dois partos em pouco tempo.

Um dia num mail a mulher azul falou do blog dela e eu contei a verdade. Disse-lhe do Bombay. Fui entre um e outro, deixando-me. Nunca consciencializei com precisão como separava os territórios, como distribuía as palavras ou os temas, como geria o afecto.

Sempre me senti mais escondida neste azul. Sempre aqui me permiti a ser mais outras coisas de mim, mas tenho sérias reservas quanto ao resultado disso. Disseram-me um destes dias uma verdade: que se percebia que eu não tinha tempo, que vinha e me deixava escrita e partia com pressa... como quem deixa alinhavos nos textos, pressas por talhar, bocados por fazer. Costuro sem moldes e sem tempo. Sei desta verdade, desta precariedade.

Quando me releio esparsamente por aqui, percebo bem da aleatoriedade da maioria das coisas ditas e deixadas. Ainda menos que caderno de rascunho. Colecção de post-it’s. Mas também não me apetece o esforço de assim não ser... explicada a razão de não saber o porque de persistir.

E assim continuamos... acontece também na vida, não é? Persistimos e nem sempre sabemos porque.

15 maio 2006


( Jorge Molder)

Às vezes não sei onde está a janela. Na parede, na vidraça, no labirinto.

Às vezes risco-a, na parede, a giz. Às vezes fica na cal da sombra.

Às vezes há janela e não o olhar.

Às vezes está tudo lá, menos eu.

12 maio 2006

Homens Sem Resposta

(Jorge Molder)
Há mulheres que sabem perguntar. Fazem a direito e a navalha, o golpe até à ferida: perguntam. Tacteiam a verdade. Procuram-na. Vão direitas, sem contorno. Desesperam rente à verdade.

Há homens que ouvem. Calam a covardia de fugir da verdade. Fogem eles primeiro da verdade deles mesmo. Ficam então sem resposta. Calam ou falam as palavras da resposta ao lado. Desesperam, sem que se dê por ela, em fugir do golpe.

Nem todas as mulheres sabem perguntar. Nem todos os homens fogem da verdade. Algumas sabem faze-lo, de ferir. Alguns não respondem e acrescentam a isto a covardia de esquecer da pergunta e da resposta.

10 maio 2006

O que um MP3 nos faz...

Tenho um mp3. Verde primaveril. Vou, aos poucos, depositando nele as músicas da vida e vou andando com elas para todo o lado.

Destabiliza-me a vida toda, irrequieta-me a alma, não estou cá... estou entre a memória do tempo e o tempo quente. Permite-me olhar a vida como um filme com banda sonora, pessoalmente, seleccionada. Toda a gente faz agora parte da minha história. Figurantes de contorno mais bonitos e sensuais. Misturo em paisagens presentes, pessoas e almas antigas.

Aconteceu ontem no comboio que contorna o mar. Fiz a linha toda a ouvir as minhas músicas e como que senti que entravam, em cada paragem de estação ou de música, as pessoas eternas. Chegavam, sentavam-se ao lado e saudavam-me. “ Como vais ? que tens feito ?” e o mar, sempre o mesmo mar. Saiam depois, uma a uma, na paragem ou na música seguinte. Eterna e fluída revisitação.

Ando com dificuldade em acertar o tempo mas saborosamente aleanada.

09 maio 2006

Parabéns JP



Quando eu chovia e ele era tempestade.

05 maio 2006

Chico disse e eu sei

Chico ( Buarque ) disse, porque responde, e eu encontro nas páginas da Sábado:

“ – ( ... ) outro lado que faz uma viagem aos sentimentos da adolescência, enquanto se espera por um amor. Isso ainda existe ?

- Isso existe sempre. Quando você faz uma música de amor, inventa uma paixão e fica mesmo apaixonado. Mesmo que seja inventado. É uma coisa de adolescente. ( ... )

- (...) quase não se importa se o amor é sincero ou não...

- Exactamente! É assim, mas é bom. O sentimento vale mais do que a realidade “


É isso Chico, a gente faz e acontece. Sei o sabor desse inventar que fica grande e engole. Quantas paixões já fiz assim, quantas tristezas já doí assim, quantos dias já levei feliz assim, quanta gente já vinguei assim, mas nunca ninguém tinha falado, como tu, tão simples desse processo que se leva junto à pele.

Ás vezes é fácil e a gente ajeita a história ao que quer sentir, ora vai paixão ora acontece vingança. Também gosto da tristeza, em dia de chuva miudinha, dá jeito um pouco de drama na vida. E não é que a gente chora mesmo!... chora a história que chora por nós.

Outras vezes é menos fácil. A dureza seca e a coisa não se faz como pele, não vibra, não entusiasma, não circula pelo sangue.

Reconheço esse processo de inventar sobre as coisas. Reconheço-o profundamente. Suspeito que é com recurso a ele que se faz muita da minha felicidade ou tão só da minha tranquilidade. Enquanto a coisa de inventar sentimento resultar, creio ter garantida a minha eternidade de entusiasmo ou tão só de vibrante vivência que o tempo deixa.

É bom. Mesmo bom. O sentimento vale mais que a realidade

04 maio 2006

Engano IV - Não acertaste no alvo

(Julião Sarmento)
Pum-Pum... não acertaste no alvo.
Ninguém morreu nesta sequência de enganos. Ninguém morreu e ninguém se deixou morrer. Houve apenas o engano de amar.

03 maio 2006

Engano II - Cama Desfeita vs Engano III - Janela Aberta

( fotografia Daniel Blaufuks)

Desfizeste a cama e não chegaste. Deixaste a ruga e levaste a pele. Pousaste a lamina na mesa de cabeceira e levaste a barba por fazer. Amarrotaste os lençóis para não amarrotar o amor. Não deixaste escrito qualquer recado, uma última palavra que ficou arranhada nas costas do último amor que a cama aguentou.

Tudo com a janela fechada.

( fotografia Jorge Molder)


Penduraste os lençóis, a ideia de amor e abriste a janela. Respiraste primeiro e só depois te ajeitaste à fuga. Olhaste o retrato da moldura da cabeceira e tornaste-o a preto e branco. Nele, ela chorou. Sangue.

02 maio 2006

Engano I - Onde estás tu ?


Onde estás tu ? em que lugar da praia morreste ? que abutre te descobriu ? que sal te fere a morte ? onde estás tu ?

É que já chegou o verão. Já faz calor no chão e os lençóis são já de linho fresco. É que a água já seca na pele , a alma já dilata no corpo.

Onde estás ? já chegaram os amigos todos pela porta do fundo, já se instalaram nos cantos da casa caiada, já encheram os cinzeiros, já arderam as palavras, já entoaram a sede... onde estás ?

Porque foste morrer como se isso fosse mais bonito do que viver ? mesmo na praia a morte não vale. Esqueceste que o verão chega sempre e com ela o esquecimento da dor.

Levaste o inverno a construir a casa de madeira nas dunas. Soube- o. Vi-te devagar com as tábuas nos ombros nus. Estava eu atrás do nevoeiro. Uma a uma a rasgarem-te a pele e a casa a crescer nas dunas em frente ao mar.

Sempre acreditei que o fazias, a construção da casa, para nela esperares o verão ou talvez guardares uma mulher impossível. Nunca acreditei que tivesses começado a fazer a tua morte tábua a tábua, no vagar de deixar morrer primeiro o inverno.

Onde estás ? que sal te fere a morte ? que abutre te sabe ? que vento te leva ?

Está o copo á tua espera. A água, de gélida ficou quente. A casa tem menos um. As vozes tem menos um eco, a parede tem mais uma fissura.... onde estás ? diz-me... diz-me devagar... soletra letra a letra, tira o mar da boca e diz... onde estás....

Vejo passar os abutres e os grifos para sul. A areia molhada não tem pegadas. Tu faltas e nada se ausenta do mundo. A casa das dunas tem as portas abertas e por elas o vento se atravessa. A cama está desfeita. Os livros perderam as palavras. A chaleira ficou pousada. O tabaco por enrolar. Onde estás ? ... onde estás ?

Só geme o calor a sair da terra seca. Nada se ausentou do mundo. O verão espera-te. Não esqueças que já é verão....


Sento-me á porta da tua casa das dunas. Acendo o cigarro. Recolho as palavras.