Bombay

Azul Enganador

26 junho 2006

Sonhos de uma noite de verão


Estou eu sentada, descalça a saber a frio de chão e a acender cigarros para o ar. Apetecia-me uma emoção intensa, uma história, fazer parte de um filme... é um sentimento forte que não cabe no maneirinho suave de que se faz esta noite. Já que não caibo da noite de casa e filme nem história me apareceu para arrebatar, eis-me a meter-me na vida dos outros e a fazer dela um filme, um começo de história...

Que melhor que uma noite de verão, um jantar e uma mulher para saber. Acontece agora a um amigo mas eu trato já de inventar o resto...sei dos grilos que se ouvem nas noites sufocantes de verão mas jamais se podem ouvir no restaurante que se esquina ao cimo do Tejo. Sobre a toalha os copos, que acolhem o vinho, na mesa onde pousam o homem e a mulher e as suas histórias desconhecidas. É um primeiro jantar a sós. O calor a descolar as primeiras palavras como cal da parede, as fissuras onde se deposita algum silêncio ainda estranho, o olhar... a concentração de negro que o olhar consegue em alturas dessas. Ousar o olhar como quem diz mais que as palavras, como quem toca com mãos quietas, como quem faz a pele milímetro a milímetro e ainda lhe não sabe o sal... tomara que ela saiba quanto bonito é o desconhecimento deste meu amigo que é homem reservado e tímido. Tomara que ela suspeite que a verdade será, seguramente, maior que a suspeita. Tomara que ela tome em mãos essa alma insuspeita. Que brindem de copo cheio e num golo possam tragar o verão e o desconhecimento. Não digam, por vergonha, mas deixem nos lábios “ à nossa “....Que até eu, com os pés frios de verão, me emociono.

22 junho 2006

In Vitro



resultado: post não fecundado.

21 junho 2006

L e o Verão


Acho bonita esta fotografia da Inês Gonçalves, que lembro da K e do Independente.

Acho bonita esta imagem do homem e do peixe, frente ao mar. Acho bonita e silenciosa. Salgada.

Também bonita para oferecer ao meu amigo L.G. que faz hoje anos. Como o verão.Feliz aniversário, homem salgado.

20 junho 2006

Sabotagem - linhas descontinuadas


Tenho os meus amigos como os postes de alta tensão da minha vida. Levam e trazem a energia que me habita, acompanham-me no percurso rente ao caminho, curto-circuitam comigo.

Na vida errante os amigos não estão, encontram-se, trazem-se, vem connosco e assim se faz, paralelo, essa rede de alta tensão. Essa memória de corrente e decorrente.

Os meus amigos começaram num afecto. Ás vezes breve e simples outras, profundo e forte. Com alguns foi fácil e breve e com outros o tempo nos fez. Quando de alguém faço um amigo, faço dele poste de alta tensão. Estaco-o no caminho, faz parte de, integra completamente a paisagem que abeiro da alma quer olhe para trás ou para a frente.

Tomo literalmente em mãos aqueles que faço amigos. Pode o tempo e o vento passar, pode a chuva não nos deixar ver, pode até não haver já caminho para nos ter... mas aceito a eternidade do que já não há e não são menos amigos aqueles que me fizeram e não ficaram. Creio ser esta umas das minhas maiores imensidões.

Digamos então que os meus amigos são os meus postes de alta tensão, uns de corrente descontinuada e outros de corrente contínua. Assim se tem povoado a minha vida, pese o ritmo diferente a que os mesmos tem feito a paisagem do tempo.

Pela primeira vez ousei interferir neste processo natural de afectos e colocação de postes de alta tensão. Não retirei o poste, cortei os fios. Deliberadamente. Em perfeita consciência e tranquilidade. Não é dor, não é vingança, não é tristeza... é serenamente por opção. Por selecção. Por mera gestão de fluxos. Assumi que a imensidão não se pode desperdiçar, que a corrente deve levar e trazer em processo fluído, que os fios ligam dois pontos , duas memórias ou só dois afectos. Decidi intervir na memória, na paisagem e fazer nela a ordenação dos afectos. Deixo o poste porque existiu, abeirou, esteve lá , conduziu e induziu a energia mas corto os fios, desligo da linha, tiro das mãos, subtraio à imensidão de o ter, não faço manutenção.

Confesso a serenidade deste processo e a ordenação da paisagem. Confesso o gozo de decidir e intervir no que sempre me foi natural. Confesso o prazer da finitude.

Outro poste se colocará com linhas presas a mim que continuará a paisagem que vem de sempre. Mas desde agora permito-me à sabotagem, ou seja, poder descontinuar linhas.

19 junho 2006

Heis-me


Deixo-me ver á transparência. Para que não duvidem de que existo. Que ausente vou sendo. Que ausente vou estando.

Deixo-me ver para lá do fumo de maço e meio de cigarros diário, do cheiro matinal a maresia que inalo à saída de casa, do dióxido de carbono da estrada que faço, das palavras que engulo para dentro e da alma que anexo algures no peito. Heis-me em retrato primário.

Ocorre-me também que há por aqui alguma fuligem de comboio que passa, de vento que não limpa, de memória que cristaliza. Esta é a estrutura que me sustém. Tudo o mais não se deixa ver em raio-x... tal como o sangue que me corre e corre comigo.

Mas cá estou eu, peito feito à vida e ao respirar.

09 junho 2006

A gente está que não está !


A gente está que não está. Deixa a casa aberta, mas dorme no quarto. Deixa roupa espalhada mas ninguém nos vê. Deixa cinzeiros cheios e copos de vinho sujo, mas não se ouve. Só grilos e o calor do verão. A gente está que não está.

Pousa a bicicleta junto á janela mas vai a pé fazer o caminho. Deixa a folha em início de história, mas não se sabe á quanto tempo a abandonou. Passa o dedo, tira o pó ! Coisa de gente que está que não está.