Bombay

Azul Enganador

29 julho 2006

... da terra



( fotografia Inês Gonçalves )

Estive uma semana no minho, na minha terra. Gosto de ter terra e ser pertença.

Todos os anos volto para a casa de pedra com latada de vinha ainda verde. Levo as crianças e deixo-as a saber o mundo com vagar. É a semana em que vou sentar-te junto ao silêncio que fica logo ali rente ao muro de pedra. Levo os meus para saberem, devagar, como se ouve o mundo.

Foi ali que pela última vez vi minha avó no verão quente de à dois anos, o meu tio Casimiro que esperou agosto para morrer. Na primeira noite fico quieta a ouvi-los. Eles deixam-se sombrios a dar-me as boas vindas... e eu que os sei com saudade, aceno no silêncio morno da noite debaixo da latada com a ténue luz do candeeiro da estrada que sobe para a serra.

Depois o alarido das crianças enche o ar, as gargalhadas e a azáfama das tarefas a cumprir: milho e farelo para os pintainhos , descobrir na palha os ovos da galinhas, dar as maças do chão ás ovelhas, correr atrás dos coelhos, descobrir entre a folhagem os ovos de pavão. Andam de socas, sujam-se de terra, são mordidas por mosquitos e riem, riem muito. As tardes são na represa do rio Neiva, junto à azenha pelo caminho medieval. Lugares inimagináveis que esse rio ainda tem em silêncio. Depois descobriram com o pai que perto da casa isolada existe um caminho de Santiago, e fizeram-no aos bocados pela fresca da tarde, apanhavam amoras que depois de lavadas comiam antes de ir para a cama.

Deitam-se cedo quase como os animais. A luz desaparece e pouco resta do mundo. É a hora em que eu pego num livro e me sento à porta da cozinha a ouvir com vagar o mundo.Os ruídos das maças perfumadas a caírem ao chão, das folhas remexidas por animais nocturnos, o vento e o silêncio côncavo e quente. Respirar essa fundura da terra adormecida. Da terra. Saber a terra. Semeá-la em mim enquanto a uva ainda não pintou e se deixa verde nas ramadas, enquanto a chuva é só um ameaço e o calor faz arfar.

Nunca lá vivi e pouco sei da sabedoria da terra. Mas gosto desses dias com cheiro a maças e limões perfumados, de calor e mosquitos, de ameaço de incêndio, de água fria do rio. São as noites, escuras e silenciosas, que tento guardar na pele. A hora esquecida em que o mundo dorme. As certezas que elas me deixam, só muito depois eu as sei.

22 julho 2006

Pausa



Vou estar sem fala. Vou estar sem falar. Uma semana. Mas volto...

19 julho 2006


( fotografia Jorge Molder )

Hoje vou falar de um irresistível blog. Banana Killers & CO (http://bananakillers.blogspot.com/) . Um blog feito de gente que viveu na mesma linha do mar, entre estações e linhas de comboio, a cheirar iodo e sal, a fazer pelo lado direito e avesso da vida . Feito de gente que cabia na mesma escola, que teimava em caber no mundo inteiro nem que não saísse do apeadeiro, do quartinho ou da praia.

Um blog que parte de uma banda ( BKC) para uma adolescência, para a uma errância, para um respirar mesmo em cima da memória que chega a embaciar as fotografias... um blog que cresce para trás.

É-me irresistível. Espreito amiúde. Deixo-me de vez enquanto, como me compete. Porque só de vez enquanto lá estive. Muito de vez enquanto. No apeadeiro, no quartinho ou na praia. Apanhei sempre um comboio para lá chegar, numa paixão ou pelos amigos.

Sei as histórias quase todas, identifico pelo tacto os lugares, reconheço a alegria e as pessoas que a compõem. Porque as ouvi sussurradas, as histórias, ou porque mas escreveram. Recebia muitas cartas dessa terra prenha de mar e nelas me chegavam histórias e fotografias para além de um pouco do nevoeiro das manhãs do norte que tanto saudava eu a sul.

Não sou feita daquela memória e tenho-a. É uma espécie de memória, minha, em braille.

Dessa gente tenho amigos que, para além de me terem ficado eternos, se abeiram tanto da minha própria memória que com alguma facilidade se promiscuem as memórias. Se contagiam. Se confundem.

Dessa gente tenho gente para o afecto. Por muitos deles tenho uma estima cativa no tempo. Um carinho de e para sempre. Feito menos de nós e muito mais de tudo o mais. ( o homem que quis atropelar o comboio, é aquele que recordo como sendo o que sempre me recebeu de forma mais calorosa. Assim o sentia eu. Tal como o aquele outro, no qual em casa muitas vezes ficava, que me mostrava os carochas com orgulho estampado e que gosto particularmente de o reencontrar a comentar).

Dessa gente, há alguns com quem talvez nunca me tenha cruzado e no entanto reconheço-os.

É-me irresistível esse blog. Memória de pele que não tive mas senti. Arrepia, lembra, aperta às vezes. Coisa para usar e abusar. Bem haja, BKC!

18 julho 2006

chuva quente e roliça


Gosto de chuva quente e roliça. Chuva de julho ou agosto. Gosto da chuva quando não acredito no inverno.

Choveu esta noite. Tenho o carro na oficina o que me obriga, gostosamente, a mudar o percurso dos dias. Vim de comboio. Comecei nele a ler um livro emprestado “ As duas águas do mar “ do FJV. Vim a cheirar a chuva e a sentir os Açores da história que me deixou calada. O pressentimento do sismo

“ - As ilhas não são boas para a alma – acrescenta Jaime Ramos. – Fica-se triste. Tenho quarenta e cinco anos e percebo que já não tenho idade para me queixar. Estou a ficar velho.
- Fica-se velho mais cedo, hoje em dia.
- Mas agora é que se notam as consequências. Reumatismo. Dores de cabeça. Já não são as gripes de inverno, mas são coisas ruins no corpo. E pena de não ter filhos, nem uma casa de família, um lugar onde possa passar fins-de-semana a dormir sem me preocupar. Uma casa com quintal. Uma ilha.
- Há tempo. Há tempo para tudo.
- Não, não temos assim tanto tempo. A vida vai ficando perigosa e difícil, se fazemos de duros damo-nos conta disso muito melhor e muito mais cedo. Envelhece-se, a Rosa tem medo, nota-se que tem medo. Devia casar. Ou ela ou eu, devíamos casar. Ou os dois ou cada um por seu lado.
Filipe soubera durante anos da sua própria vida que um dia iria dizer precisamente aquilo. Na sua opinião, Jaime Ramos estaria dez anos atrasado para aquela conversa, um diálogo que ele tinha por vezes consigo próprio.

- E o maior perigo não se vê. São os sonhos, os pesadelos que vão e vêm, agora este, depois aquele. Os sonhos dão cabo de nós, como as ilhas “

Depois Lisboa pareceu-me diferente, de ar limpo e olhar ávido. Julho já. O verão derramado na cidade mesmo chovendo. Toda a gente finge que não chove, teima no verão com a certeza dele, mas sente a água quente e refrescante. A mesma roupa leve, os mesmos cabelos apanhados do calor, o corpo moreno a descoberto.

No verão, chove só por dentro das pessoas. Pingos quentes e roliços.

Gosto de ver os pingos que teimam na janela , gosto da alegria sobranceira de não acreditar no inverno, de vir escrever porque gosto de chuva quente.

E o cheiro da terra, esse, nas primeiras chuvas. Ainda não o senti, mas sei como é quando deixam a terra respirar um pouco.

Na ilha da chuva enganosa. Quente e roliça. Apaziguadora.

14 julho 2006

Sexta-feira... Hollywood

Quase toda a gente vai de férias, mas eu vou para Hollywood. Decisão certeira em vésperas de fim de semana. Tenho que me fazer estrela e é já!

Aguento lá eu mais as filas da ponte 25 de Abril, a areia a colar ao bronzeador, o bocado de panado entalado entre os dentes, a sesta debaixo do pinhal, a birra do filho enquanto eu leio a TV Guia... definitivamente que não. Foi enquanto teve que ser e pouco mais a vida me deixou. Mas tenho que me fazer estrela rapidamente....sempre foi esse o meu desígnio.

Quando conheci o Xico ainda fui princesa e com jeitinho e sorte achei que poderíamos acabar ambos a ser estrelas. Mas a coisa, sem jeitinho e sem sorte, acabou mais em proletariado. Nada a objectar, mas eu nasci com fibra de estrela...e o Xico esse, que se vire por ele.

Definitivamente: vou para Hollywood . Já. Afoita e de alma feita. Corpinho estafado e sonho intocado. Já me imagino a aparecer em muitas polegadas, écran gigante, banda sonora frenética... uí... vou chorar quando assim me vir a mim mesma. Cumprida. Vencedora em Hollywood.

Está tomada a decisão. Uns de férias e outros, como eu, atrás da Meca. Até sempre, de lá contarei...

Tina Bombay

13 julho 2006

mulher ao vento

( fotografia Ricardo Tavares )

O meu amigo afinal não se apaixonou. Abeirou-se da hipótese e ela não se fez, pelo contrário, volatilizou-se. Vou chamar-lhe amor ao contrário.

Ele ficou intrigado por tal lhe acontecer. Não há intriga para isto, nem conversa. O meu amigo sabe pouco de química, ou melhor, acredita pouco nela. Ficou com o peso do amor ao contrário.

O meu amigo anda temeroso que o amor lhe passe a acontecer ao contrário. Passará, passará suspeito eu.

Perguntar-me-ão porquê, dado que amor não é coisa que tenha avesso, que se vire para o lado certo de vestir ...

Porque este meu amigo tem um amor instalado e não sabe disso. Melhor, não quer saber. Quando um amor se instala e nos coabita, todos os outros que nos aparecem acabam ao contrário. Invertem-se. Ficam de pernas para o ar , o que não sendo sustentável por muito tempo, acabam por se retirar. São apenas hipóteses de amor, sem hipótese...

O meu amigo afinal não se apaixonou. E estou quase certa que na hora que ele soube disto e isto lhe disse, apareceu o vento.

Há no mundo agora, uma mulher ao vento.

05 julho 2006

Recebeste ?


Hoje tenho saudades do que não há.

A saudade aloja-se mesmo aí na inexistência, não é ? Então... tenho saudades de impossíveis.

Apetecia-me estar em frente ao mar da Bretanha, acreditar nos livros e no amor de M. Duras. Apetecia-me que o estar tivesse mar forte e cheiro a iodo. Algum sal.

Apetecia-me ter descalço o verão, ter uma estancia balnear alojada em mim onde houvessem barracas de praia às riscas para me puder deitar na da areia à sombra e ás escondidas. Escrever palavras com o dedo, na areia molhada.

Apetecia-me um tédio dolente de fim de férias, presságio das chuvas, onde me deitasse em cima da cama fresca a inventar sentimentos, a escolher amores, a urdir nostálgias.

Apetecia-me esticar o mundo num carril de comboio e levar a vida na mochila suspensa por um mês de inter-rail. Sentir as noites quentes da grécia, passar a fronteira de madrugada até Instanbul e vir a saber tudo, tudo nas folhas do chá que ficam no fundo da chávena. Também podia parar em Viena, afagar a alma na elegância dos seus cafés ou morrer depois, já muito noite, num bar surreal e miserável junto da estação de comboios. Não morreria sem ter visto Egon Schiele e isso teria bastado.

Apetecia-me acreditar na eternidade das coisas pequenas. Dum poema. Dum beijo. Dum suspiro. E ser depois feliz por não precisar de acreditar em nada.

Apetecia-me escrever. Uma história comprida e sofrer com ela em cada rasura, em cada derrame de tinta, na falha da palavra.

Apetecia-me sentar na esplanada virada ao rio, pedir a cerveja e esperando, saber que tinha todo o tempo do mundo. Começar a olhar a ponte ou só a trajectória da primeira ave que riscasse o olhar.

Apetecia-me ter um desígnio para o poder matar. É tão bom dar cabo das coisas que se tem axiomaticamente... ferir com vagar, deixar a pele a arder e saber depois que se matou a mentira e o engano e ficou a verdade.

Mando-te um postal destes quando chegar a alguma desta saudade. Quando o receberes, saberás que foi a ti que te quis dizer . Não saberás o quê, apenas que estou muito bem. Algures.

Apetecia-me escrever um postal. Encostar-me em qualquer lado e na ânsia de o dizer, escrever rápido “ velvet script “.

Já recebeste ? então também tenho saudades tuas, para além das saudades de mim.

02 julho 2006

Rascunho a vida




Sim, vai bem. Vai verão. Vai noite.

Tenho andado ocupada, com o tempo carcomido pelo caruncho do muito trabalho... sim, leva a sério e a coisa leva-me muitas das vezes. Quando se instala muito, muito tempo, aí... não gosto. Mas assim coisa de intensidade temporária, leva-se bem.

Não tenho andado muito vibrante, mas hoje deixei-me à noite e fui pela alegria das ruas do bairro em festa, parei nas mesmas portas de antes ( o Majong está diferente. Sem matrecos.Outra ambiência.Mas gostei das couves nos candeeiros... ), bebi o mesmo gin de sempre, deixei-me à mesma alegria intemporal. Não invejo a gente nova com que me cruzo... gosto mais desta sabedoria que o tempo nos faz e que nos permite mais atitude, mais raça, mais jeito... talvez tenhamos já menos capacidade fácil à alegria, a tristeza e a sombra sempre minam e a alma acaba a enrugar a pele na vida... mas não troco a segurança deste jeito, se ele me for deixando ser alegre, como antes, de vez enquanto.

Rascunho a noite e o verão. Deixo aqui tal como a cinza que ficou no cinzeiro. Acho que devo começar a usar batom vermelho e definitivamente não deixar perder o que me resta. É bonito ser feliz . Amanhã até tenho uma estrada imensa para fazer a sul e as estradas são imensidões que nos permitem o vagar de pensar. Posso dormir a manhã toda, antes de partir, e acordar com a tranquilidade acamada.

De tão pouco me faço. De tão pouco que me alegro. Desse pouco que me é muito. Muito, muito. Rascunho de vida...