Bombay

Azul Enganador

31 agosto 2006

25 agosto 2006

gritante

Tenho o mundo a gritar por mim. Grita sedento do verão quase a cumprir-se. Reclama as férias que ainda não gozei, a luz entornada dos fins de tarde na praia... está quase. Deixei o verão enganar-se em Setembro. Mas até lá o mundo grita em todo o lado, em particular, quando desço às profundezas. Abre a boca e berra...

14 agosto 2006

carpa

( fotografia Inês Gonçalves )

Estou presa ao verão como uma carpa, mas longe do fresco da água. Penduraram-me, em cordel amarelo, na casa de madeira da duna. Vejo o mar mas não lhe sei o sal. Respiro com guelra, a custo...

07 agosto 2006

de pé... na noite



( ando a descobrir que sou mais dada a andar descalça pelas noites, do que suspeitava... )

Noite de Barcelona. Junho de 2005. Foto de casal. Ainda pensei por esta fotografia em moldura e retrato de família.Noites quentes.

Pés sujos ... da dança


Pé sujo preto negro de dançar. Assim mesmo, no chão da madeira, na noite quente na casa da dança. A noite é quente, muito quente Agosto a música é boa, muito boa quente, muito quente... põem então os pés no chão, madeira suja, e danças. Danças ligada à terra danças sem histórias sem homens sem memória ligada à terra pelos pés. Mais fácil. Mais gostoso. Mais simples.

Será assim com as árvores e o vento ?

01 agosto 2006

Para Sempre

Passei estes últimos dias a ouvir o calor da terra misturado com o perfume das maças. Na casa de pedra li todos os livros que tinha para ler, todos os que levara e ainda um que repousava na cabeceira de um dos quartos. “ Cartas a Sandra “ de Virgílio Ferreira. As cartas que surpreenderam a morte. Quando o acabei, numa dessas noites em que me deixava ficar na latada a ouvir a terra respirar, fiquei com a certeza de que deveria voltar ao “Para Sempre”. Já pegara nele em finais de maio, movida pela curiosidade que me restara de um entrevista na rádio em que o entrevistado nutria uma admiração imensa por Virgílio Ferreira e com uma voz quente, dele diziam frases escritas que me pareceram de uma beleza sublime.
Assim aconteceu hoje. Doze anos depois de o ter lido num maio antigo. Desse livro, relido ainda pela metade, apetece dizer:

Um livro que exala calor. O calor da terra serrana. Em cada poro ou palavra nele contida o calor estala. Seca. Abafa. Um livro fácil para se reler para quem vem de uma semana rural, que traz ainda presente a memória da terra e das sombras habitáveis da morte que nas casas de pedra se deixam.

O entendimento triste. É mais triste ler agora aquele livro do que à doze anos atrás quando as ausências da morte eram menores e menos perto dela estávamos. Continua a ser um livro muito bonito mas terrivelmente mais doloroso. Le-lo, é saber por antecipação a dor da vida contida na entrega ou na espera da morte. Com calor, muito calor. Numa casa desabitada, virada para a montanha.

Aquele homem, o Virgílio, deveria ser um homem difícil. Áspero. Feito por dentro. Seco. Pouco sei dele mas a leitura deste livro advinha-o assim. De uma intensidade imensa mas intraduzível. Como um homem assim ama uma mulher, percebesse no “ Para Sempre “. Quase obsessivo. Depois da morte dela. Talvez sem nunca lho ter dito. A palavra por cumprir, cumprida nesta obra.