Bombay

Azul Enganador

01 agosto 2006

Para Sempre

Passei estes últimos dias a ouvir o calor da terra misturado com o perfume das maças. Na casa de pedra li todos os livros que tinha para ler, todos os que levara e ainda um que repousava na cabeceira de um dos quartos. “ Cartas a Sandra “ de Virgílio Ferreira. As cartas que surpreenderam a morte. Quando o acabei, numa dessas noites em que me deixava ficar na latada a ouvir a terra respirar, fiquei com a certeza de que deveria voltar ao “Para Sempre”. Já pegara nele em finais de maio, movida pela curiosidade que me restara de um entrevista na rádio em que o entrevistado nutria uma admiração imensa por Virgílio Ferreira e com uma voz quente, dele diziam frases escritas que me pareceram de uma beleza sublime.
Assim aconteceu hoje. Doze anos depois de o ter lido num maio antigo. Desse livro, relido ainda pela metade, apetece dizer:

Um livro que exala calor. O calor da terra serrana. Em cada poro ou palavra nele contida o calor estala. Seca. Abafa. Um livro fácil para se reler para quem vem de uma semana rural, que traz ainda presente a memória da terra e das sombras habitáveis da morte que nas casas de pedra se deixam.

O entendimento triste. É mais triste ler agora aquele livro do que à doze anos atrás quando as ausências da morte eram menores e menos perto dela estávamos. Continua a ser um livro muito bonito mas terrivelmente mais doloroso. Le-lo, é saber por antecipação a dor da vida contida na entrega ou na espera da morte. Com calor, muito calor. Numa casa desabitada, virada para a montanha.

Aquele homem, o Virgílio, deveria ser um homem difícil. Áspero. Feito por dentro. Seco. Pouco sei dele mas a leitura deste livro advinha-o assim. De uma intensidade imensa mas intraduzível. Como um homem assim ama uma mulher, percebesse no “ Para Sempre “. Quase obsessivo. Depois da morte dela. Talvez sem nunca lho ter dito. A palavra por cumprir, cumprida nesta obra.

3 Comments:

  • At 00:34, Blogger D em Coimbra B said…

    Sempre gostei das sombras de uma latada pelo Verão. É bom, não é? Pensa-se em tudo, arruma-se o mundo...

     
  • At 11:37, Blogger M em Campanhã said…

    e eu lá comprei ontem a Manhã submersa, para recomeçar da casa da partida depois de o meu princípio ter sido o para sempre.

    "aqui estou estou, na casa ggrande e deserta, para sempre"

     
  • At 00:07, Blogger Claudia said…

    O livro mais bonito de sempre...Para Sempre.

    Beijo

     

Enviar um comentário

<< Home