Bombay

Azul Enganador

29 setembro 2006

não fora não ter um carocha...


Se tivesse um carocha, hoje partia. Pela chuva. Punha o dedo no mapa e abeirava as estradas junto á água. Talvez fosse até São Jacinto. É uma língua de terra com mar e rio no contorno. Parava no caminho para acertar o destino, reabastecer o depósito e trazer volume de tabaco. Deixava-me á estrada, ao prazer de cumprir o limite de velocidade, porque certa de ter onde ir. Chegar de noite. Na estrada escura e húmida. Talvez ouvir logo o mar e não o saber. Pousar a vida na mesa de madeira. O Café do Francês já não aluga os bangalows de madeira no pinhal... mas podemos fingir haver uma casa nas dunas para conter essa mesa onde se pousava a vida e as mãos na chávena quente do chá.

Há o tempo e a espessura do silêncio. Primeiro, revibram nele as histórias escritas e vividas. De amores, seguramente. Um lugar daqueles guarda com sal os amores e a memória dos corpos apaixonados. Depois calam-se as histórias porque o mar se ouve mais alto. Chega então a espessura do silêncio que permite começar a falar. Connosco.

Era essa a conversa que queria, não fora não ter um carocha.

26 setembro 2006

La mentirosa


Sou uma grande mentirosa! Há quanto tempo não estou já de férias... mas deixei-me estar assim, fazendo crer que sim, que me tinha perdido nesse início de setembro lá muito perto do Atlas. Não me apeteceu dizer ao mundo que já tinha vindo, atravessado em Ceuta, galgado o mar e estava em terras lusas. O mundo que descobrisse que eu tinha chegado, que me molhava já nas primeiras chuvas do outono e começava a respirar sem ter que dizer...

Além de mentirosa, interesseira... é que isto de deixar pregado o letreiro das férias também se me revelava bastante útil. Estava condignamente justificada a ausência de palavras. Porque a verdade é bem outra: não há palavra. Estou muda para começo de outono. Sem linguagem, senão a chuva.