Bombay

Azul Enganador

17 outubro 2006

M de sombra


Este não é o meu amigo M, mas é para ele a fotografia tirada pelo distinto Jorge Molder. M é um homem que criou um novo conceito, o de tornar infinito o espaço entre o que é e o que deixa saber. Neste sentido podemos designa-lo como um homem sombrio. De um escuro que é quente. De um silêncio, para quem sabe, audível. De uma alegria que rasteira a sombra.

O meu amigo M é uma fotografia por revelar. Teimoso como é, persiste em deixar-se na tira dos negativos. Que ampliação dava este meu amigo se um dia ousa-se revelar-se. Um tamanho tão imenso quanto ele.

A amigos assim a gente fala baixinho e acaba a berrar. A amigos assim, reféns do escuro, apetece atirar o mar à cara, apontar a luz aos olhos. Apetece a força da demonstração, por afecto.

O meu amigo M é uma fotografia para acontecer. Também ele faz hoje anos e nós celebramos. No fundo pensamos “ será desta ? “ que a luz se deixa num homem que se esconde na sombra .
Parabéns, M.

M(ulher) em janela azul


Esta é a minha amiga M contra uma janela azul. De M convém ainda dizer que tem uns olhos azuis como poucos, mas teimou Modgliani em por esse azul no retrato da janela. Este é um retrato baralhado da minha amiga M, ficam a saber.

A minha amiga, antiga como o tempo de começar a crescer, faz hoje anos. Celebra assim a passagem das marés. Viemos acenar-lhe, rente na praia, e dizer-lhe que esperamos estar por muito, muito tempo. Tanto tempo quanto o mar.

A minha amiga, e é preciso um bocadinho de evocação..., cresceu comigo nas palavras escritas das cartas. Lembro dela vestida de roxo no apeadeiro quando ainda nos custava falar as palavras que muitas pousamos em cartas. Esta minha amiga foi um vagar imenso e talvez por isso eterno e sanguíneo. Suspeito que sabíamos que jamais nos prediríamos, pelo que nunca tivemos pressa e deixamos a timidez perder a pele e perder-se de nós. Depois das cartas invadi-lhe o quarto amarelo e a carinhosa família. Foi o meu chão do norte. Não sei que alguma vez lhe disse... mas foi muito, muito bom tê-la rente à minha vida. Uma dádiva azulada.

Parabéns, M.

04 outubro 2006

...à minha espera...


Tenho saudades de receber, em casa, envelope fechado e gordo com cassete lá dentro. Tenho muitas, bonitas, guardadas assim. Como cartas para ouvir ou segredos ditos por outros. Os amigos, poucos, ofereciam-me assim a música de que gostavam. A oferta durava o prazer de imensos dias, fazia as horas lentas no comboio, assombrava a felicidade ou acompanhava a tristeza.

Identifico três amigos que com alguma regularidade rara me endossavam vozes em envelopes gordos: M, JP e F. F fazia-o sempre em redor de maio, num trabalho lento e belo. Montava as capas com recortes ou fotografias, escrevia negro desenhado algumas palavras e compilava músicas ... só vozes de mulheres, pequenas revelações, sons do oriente. M e JP com outra agilidade, com outra mais fácil identificação. De todos, como uma dádiva.

Tenho saudades. Muitas. Que me ofereçam sons calados dentro de um envelope. Pode ser agora raso, cd e segredos em formato mp3... ter, à minha espera, em envelope com o meu nome. Tão bom seria... que saudades tenho.